domingo, 24 de fevereiro de 2019

O COPO DA DESPEDIDA


Todo o dinheiro que alguma vez tive,
em boa companhia o desejei gastar;
e todo o mal que alguma vez eu fiz,
em verdade só a mim pôde afectar;
e tudo o que fiz buscando por sabedoria,
à lembrança agora não consigo trazer.
Por isso, encham-me o copo da despedida;
boas-noites, possa em vós a alegria permanecer.

Oh, todos os camaradas que eu já tive
lamentam que chegue a hora de partir,
e todas as enamoradas que já tive
queriam que não tivesse de me despedir.
Mas já que tal me reservou este fado,
levantar-me enquanto ficas sentado,
ergo-me tranquilo e digo em sereno dizer:
boas-noites, possa em vós a alegria permanecer.

Se para gastar tivesse eu muito dinheiro,
e tempo livre para ficar sem pressa sentado!
Há uma bonita rapariga nesta cidade
a quem pertence este coração enfeitiçado.
A suas faces rosadas, os seus rubros lábios!
Cativo sabe ela o meu coração ter.
Então, encham-me o copo da despedida;
boas-noites, possa em vós a alegria permanecer.





Tradicional (Séc. XVII) ¹








(Versão adaptada de Pedro Belo Clara a partir da versão moderna no tema em inglês.)







(Sugerimos uma das primeiras e mais famosas versões do tema, na voz dos inconfundíveis Clancy Brothers: https://www.youtube.com/watch?v=4Np_Ud4KA08 )









(1) Deve-se desde já esclarecer que a data apresentada não é a data da criação exacta do tema escolhido para esta edição, mas doutro que lhe serviu de inspiração. Digamos que a versão apresentada - chamemos-lhe moderna - chega-nos como o resultado final de séculos de reinterpretações e, arriscamos, de apuramento textual.
É de facto no século XVII, algures entre 1620 e 1630, que se edita em antologia, e pela primeira vez, uma canção com o nome igual ao verso que finaliza cada oitava. Então, a única diferença estava na presença da palavra "Deus" ao invés de "alegria". Contudo, tratava-se apenas duma melodia, sem qualquer letra anexada, e até essa difere da melodia actual que faz o tema. Contudo, anos depois, uma nova versão é realizada onde, então sim, já se descortinam as primeiras semelhanças melódicas com a canção que hoje se conhece. Estávamos no ano de 1700 e a palavra "alegria" já tomava a sua parte no título da canção.
Falamos dos temas, mas até agora esquecemos a sua autoria. Na verdade, é totalmente desconhecida, apenas se sabe que a origem é escocesa - ela que hoje é um tema tão popular na Irlanda -, talvez uma melodia de berço rural, quem adivinhará? Na sua publicação não foi feita qualquer referência, pelo que é possível ter sido escutada dos lábios ou da flauta dum qualquer camponês das terras altas. 
Na entrada do século XVIII, e contando a melodia praticamente cem anos, o tema torna-se incrivelmente popular. É então neste período por tradição usado como canção de despedida no fim de grandes reuniões; inclusive, nos bailes da época era a última música a ser tocada. Ora, isto diz-nos claramente que já então a música, somente instrumental, era vista como a ideal para situações do género, pelo que se compreende a inclinação que mais tarde a sua letra virá a ter. 
Sobre a mesma, diga-se que a primeira é editada em 1652 (há quem refira 1670), ou seja, pouco depois da melodia primeira que lhe daria ténue influência. De facto, este texto publica-se numa folha de pauta, algo muito comum então, com outra melodia por acompanhamento, mas algures no tempo, como veremos em breve, ambos se encontrarão. Ainda sobre o texto, é claro que esta primeira versão pouco tem em relação com o tema moderno, somente, de novo, o último verso de cada oitava (também nisto se iguala), mas ainda sem a palavra "alegria" (é "Deus" que a subsistiu, como na versão instrumental antes referida). O tema dava pelo nome de Neighbours Farewell to His Friends (A Despedida dos Vizinhos Aos Seus Amigos), um longo poema escrito em modo de diálogo. Mas note-se, de novo, como o carácter da partida também nesse texto se faz transparecer. 
Nas décadas seguintes novas versões foram publicadas, cada qual de acordo com o cunho do seu autor. Como já aqui referimos por diversas vezes, tal prática era comum no universo do folclore musical. Poetas como Robert Burns e Alex Boswell deram-lhe novos sentidos dentro do sentido original de despedida e celebração, o que só serve para confundir quem realmente deseja conhecer as verdadeiras origens da canção, uma vez que certos autores fornecem fontes diferentes e de parca validade. 
Somente no início do século XIX é que se imprime uma nova versão tendo por título o já referido último verso. Nunca anterior a 1815, o tema regista-se com fonte anónima, apenas uma referência a um certo poeta de rua, que utiliza já a expressão "copo da despedida". (Uma breve pausa para explicar o termo: era comum nas ilhas britânicas servir em tabernas ou albergues o chamado copo da despedida, uma última bebida antes da viagem acontecer, por modo a manter o conviva quente e feliz. Será talvez o costume que está na base da expressão portuguesa "mais um para o caminho".) Este texto, na verdade, é já muito idêntico ao que apresentamos em tradução, com expressões importadas da tal canção dos vizinhos e uma oitava a mais, algo que como se vê algures se perdeu. O texto escocês chega pouco depois a Inglaterra e em Liverpool é editado em 1824. Este passo é importante, uma vez que se presume ter sido graças a esta difusão que o tema chegará, por fim, à terra onde se imortalizaria de vez - a Irlanda.
De facto, algures por 1830, na cidade de Cork, é impresso um texto idêntico a esse, salvo certas liberdades que sofreu não se sabe por que mão - talvez de um certo Baird, o editor.  Uma vez mais, nenhuma referência à autoria original foi feita. Dez anos depois, nova impressão de nova autoria, desta vez aclamando a canção como nova (imagine-se!), num claro golpe comercial. Foi, assim, nos começos de 1840 que a canção ganhava os seus traços mais modernos, se bem que ainda continha uma oitava extra e um refrão que até aí nunca havia possuído. Mas em termos de título, é aqui que finalmente ostenta o actual The Parting Glass (O Copo da Despedida, conforme se traduziu). 
No entanto, entenda-se que a melodia associada ao tema não era ainda a que hoje se conhece. Essa, segundo alguns pesquisadores, nasce de um tema popular naquele período, o Sweet Cootehill Town (Doce Vila de Cootehill), uma canção sobre emigração com reminiscências numa outra mais antiga, talvez do século XVIII. Letra e música haviam finalmente contraído um feliz matrimónio. Mas o apuramento literário ainda não havia findado. É já no século XX, em 1939, que numa antologia de canções populares Colm O'Lochlainn a apresenta tal como hoje se conhece, fazendo referência ao facto de lhe ter sido transmitida pela sua mãe, que por sua vez a escutara de seu pai. Só então, e com a célebre apresentação do tema em 1959 pela famosa banda Clancy Brothers, é que a canção é tida como definitiva na sua forma (apesar destes terem invertido a ordem de duas oitavas).
O tema, entretanto, foi cantado e gravado por diversas bandas e intérpretes, sem que alguns se escusassem a adicionar o seu próprio perfume. Bob Dylan, por exemplo, inspirou-se nele para compor o seu Restless Farewell (1963), e até o actualmente célebre Ed Sheeran já a interpretou. Ainda hoje é vista como a canção ideal para encerrar um convívio ou outra qualquer feliz celebração, tal como na sua origem. O espectáculo de música e dança Irish Celtic, que muito recentemente passou por Portugal, encerra com uma belíssima interpretação sua acapella. 
É um tema escocês que a Irlanda reclama, mesmo que a história a contradiga. Na verdade, é hoje muito mais famosa aí do que no país de origem, onde conheceu o seu esplendor, de outra forma e modo de expressão, no século XIX. Hoje, curiosamente, tal versão é praticamente desconhecida, muito por "culpa" do famoso tema de Robert Burns, Auld Lang Syne, esse sim, mundialmente conhecido como canção de Natal ou de fim de ano, embora tenha sido composto no intuito de ser uma canção de despedida, tal como esta. Mesmo no que toca a ela, as suas antecessoras, tão célebres por trezentos anos, perderam para as versões dum poeta de rua e duma melodia irlandesa de origem desconhecida. Juntas, é certo, enchem em grande medida este maravilhoso copo de despedida - que obviamente se quer bem cheio. Saúde! 







(Hip, Hip, Hurra! Kunstnerfest pa Skagen,
de P. S. Kroyer (1851 - 1909)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

TU VENS, RAPARIGA?


Oh, enfim o verão está a chegar,
as árvores florescem docemente,
e o tomilho silvestre
à urze violeta cresce rente.
Tu vens, rapariga?

     Juntos iremos, nós todos,
     apanhar o tomilho silvestre,
     ao redor da urze violeta, nós todos.
     Tu vens, rapariga?

Para o amor meu uma torre farei,
junto duma fonte d'águas cristalinas,
e nela então irei pôr
da montanha as flores mais finas.
Tu vens, rapariga?

     E juntos iremos, nós todos,
     apanhar o tomilho silvestre,
     ao redor da urze violeta, nós todos.
     Tu vens, rapariga?

Se o meu vero amor não estiver cá,
um outro encontrarei, é certo,
para apanhar o tomilho silvestre,
que da urze violeta cresce perto.
Tu vens, rapariga?

     E juntos iremos, nós todos,
     apanhar o tomilho silvestre,
     ao redor da urze violeta, nós todos.
     Tu vens, rapariga?





Francis McPeake (1885 - 1971) ¹





(Versão adaptada de Pedro Belo Clara a partir do original em inglês.)










(Apesar de ter sofrido algumas alterações ao nível da letra e do arranjo crendo a canção escocesa e não irlandesa na sua origem, os The Chieftains ainda conseguem os louros por uma das mais bonitas versões que se fez sobre o tema. Aqui deixamos a sugestão: https://www.youtube.com/watch?v=DOiIVw0xRDk ). 











(1) Nasceu em Belfast, actual Irlanda do Norte, este popular músico e compositor. 
Desde cedo revelaria inclinação para o ofício, muito por causa dum feliz episódio ocorrido na sua infância: observou um tocador de gaita-de-foles em plena manifestação da sua arte, ficando logo arrebatado pela melodia produzida e pelo estranho instrumento em si. É importante esclarecer que o instrumento em causa era uma variação das famosas gaitas-de-foles escocesas, por isso chamada de gaita irlandesa ou, no original, gaita Uilleann, mais pequena, leve e dotada de um som menos agressivo que as primeiras.  
O impacto no jovem Francis foi forte. Determinado a saber mais sobre aquele "estranho e magnífico instrumento", empreende uma busca que levará um amigo próximo, anos depois, a lhe oferecer uma Uilleann e a garantir-lhe aulas por um conceituado músico, um tocador cego, como era tão comum na Irlanda, que dava pelo nome de John O'Reilly. Francis teria então pouco mais de dezoito anos. 
Os progressos foram sendo notáveis, até Francis, um dia, por mero acaso ou simplesmente respondendo a apelos mais profundos que ele próprio, no meio de uma canção que tocava ter começado, ao mesmo tempo, a cantar. Ora, consegue-se imaginar como poderá ser difícil tocar tal gaita sem perder o ritmo do fole e, ainda assim, ter fôlego e atenção para cantar. Sem o saber, Francis tentava algo que nunca ninguém havia feito. O cego O'Reilly decidiu logo aí que o seu jovem discípulo estava pronto.
Embora na sua juventude tenha participado em vários concursos regionais e ganho alguns, a sua carreira musical só recebeu um grande impulso a partir da década de cinquenta. Começando a tocar com o seu filho mais velho, também chamado Francis, em 1953 conseguem ambos esgotar o conceituadíssimo Royal Albert Hall. No ano seguinte, o duo torna-se um trio e, no fim da década, lançam finalmente o seu primeiro álbum, The McPeake Family of Belfast, que foi imediatamente reconhecido pela crítica competente. 
Em 1962 o trio recebe mais três membros da família e enceta uma tournée mundial, espalhando assim as suas belíssimas interpretações do folk tradicional irlandês um pouco por toda a parte. Nos Estados Unidos conhecerá uma das suas mais célebres passagens, causando um impacto positivo noutros músicos como o famoso Pete Seeger. Três anos depois a banda regressa e, entre vários espectáculos e concertos, inicia colaborações com os mais talentosos músicos então em voga, tais como Joan Baez, Bob Dylan, Julie Collins e, claro, Pete Seeger.
O sucesso não parava de aumentar. Em 1968 são convidados para tocar, como parte duma surpresa, para uma banda da dimensão dos... Beatles. No fim do concerto, John Lennon fica tão impressionado pela gaita irlandesa que pede a Francis lições, e a verdade é que as mesmas aconteceram. Porém, em 1971 o fundador da banda falece, o que levou o grupo a cancelar a tournée então agendada. Juntos, além de diversos concertos pelo mundo deixaram o legado de cinco álbuns em nome próprio. Seria também esse o ano em que se iniciariam novas agitações sociais na Irlanda do Norte, pelo que a banda decidiu suspender temporariamente as suas actividades. Mas o legado da família McPeake continuaria: em 1977 os seus dois filhos mais velhos fundam uma escola de música com o nome de Francis, que lamentavelmente fecharia em 2010. Actualmente, um dos netos leva a cargo um projecto musical de nome, claro está, McPeake, respeitando as heranças ancestrais e abrindo as portas a novas influências.

A canção que hoje propomos foi composta em 1948, tendo sido terminada apenas em 1950. Baseia-se com forte evidência num poema musicado do escocês Robert Tannahill (1774 - 1810), de seu nome The Braes of Balquhidder (As Colinas de Balquhidder), embora Francis tenha afirmado que a letra foi composta com base nas suas próprias experiências. Em todo o caso, existem semelhanças entre ambos os textos que farão alguns pensar que esta canção foi praticamente reescrita. Aliás, no universo folk vemos coisas tais com grande frequência. Bob Dylan, por exemplo, na década de sessenta tocou este tema e creditou-o como tradicional, enquanto Francis lutava por firmar-se como o seu autor. 
A versão ganharia ainda novos versos pela mão do filho, reforçando o intuito de que o pai Francis escrevera o tema para o dedicar à sua falecida esposa. E há razão nisso, pois Francis explicou as duas linhas mais controversas do poema-canção: «Se o meu vero amor não estiver cá, / um outro encontrarei, é certo». Compreende-se que numa primeira leitura se possa identificar uma certa libertinagem, uma sensação de amor falso, já que se troca de compromisso com grande facilidade. Mas não. Francis explicou que escreveu tais linhas a pensar na sua falecida esposa Mary, e como então julgava ele que não mais iria amar. Mas conhece Alice, a segunda esposa, e com o que escreveu tentou apenas frisar a grande maravilha da vida, tendo em conta o que lhe sucedeu sem que nunca o esperasse. 
Não obstante muitos pensarem tratar-se duma canção tradicional antiga, este Will Ye Go, Lassie, Go é sem qualquer dúvida um dos mais populares e famosos temas do grandioso universo folclórico irlandês. Várias vezes creditado como Purple Heather e mais comummente Wild Mountain Thyme, é uma canção simples que nos leva a um mundo camponês de serena alegria. Devemos esclarecer que nesta tradução adaptámos a canção, que se quer popular, ao estilo linguístico português que melhor sentimos ser conveniente. Desde logo, optámos por manter o título que o autor lhe deu, apesar de tantas e confusas mudanças que consoante o intérprete a canção tende a sofrer. Depois, nota-se no original um uso recorrente às expressões «wild mountain thyme» (tomilho selvagem da montanha), «purple heather» (urze violeta) e «will ye go, lassie, go», que não sendo o refrão funciona quase como um e dá à composição um estilo tradicional, onde tais repetições eram geralmente recorrentes. Ora, a sua tradução literal seria algo assim: «Virás tu, rapariga, virás?». Tal repetição pareceu-nos algo obsoleta em português, e talvez fastidiosa para o leitor, tendo que a ler tantas vezes. Daí a adaptação mais simples que se escolheu. Depois, no que toca ao tomilho, considerou-se de novo uma repetição desnecessária o traduzir literal dos versos onde ele surge, pois se o tomilho cresce na montanha é certo que será selvagem. Assim, considerámos que "tomilho silvestre" seria expressão capaz de albergar o essencial.
Apesar da simplicidade e clareza de processos de escrita, é um poema-canção que nos deixa com a imagem dos amantes, ou até de um pequeno grupo de camponeses a acompanhá-los, no início do verão a subir as encostas da montanha para, de cestas vazias, colher o aromático tomilho da montanha, um ritual tão antigo quanto belo, um sincero louvor ao tempo em que a vida de novo renasce.









(O tomilho silvestre, crescendo em torno da urze violeta.)


sábado, 12 de janeiro de 2019

O LAMENTO DO EMIGRANTE IRLANDÊS


Sento-me agora no degrau, Mary,
onde nos sentámos lado a lado
numa clara manhã de Maio, há muito,
quando firmámos o nosso noivado.
O milho despontava fresco e verde,
alto e forte era da cotovia o cantar;
rubros estavam os teus lábios, Mary,
e a luz do amor fulgia em teu olhar.

O lugar pouco mudou, Mary:
o dia está tão luminoso quanto outrora,
a alta canção da cotovia faz-se ouvir
e o milho põe-se verde sem demora.
Mas falta-me o suave enleio da tua mão,
e o teu sopro, junto a mim a arder
- continuo escutando as palavras
que não mais poderás dizer.

Tudo isto dois passos além da vereda,
perto donde a capela se faz anunciar,
a capela onde nos casámos, Mary
- a sua torre consigo daqui avistar.
Mas o cemitério fica a meio, Mary,
e pode perturbar tua paz esta passada
- fui eu, adorada, que te entreguei ao sono
eterno com a criança ao peito encostada.

Estou agora muito só, Mary,
um pobre não pode novos amigos encontrar;
mas, oh!, ainda amam eles o melhor,
o pouco que o nosso Pai pode enviar!
E tu foste tudo o que tive, Mary,
a minha bênção e o orgulho meu!
Nada mais me sobra para cuidar,

desde que a minha pobre Mary morreu.

Teu era um bom e bravo coração, Mary,
que guardava ainda em si esperança,
quando a fé em Deus da alma desertou
e os braços ficaram como os duma criança.
Sempre na boca uma palavra de conforto,
e um jeito doce e gentil de olhar
- abençoou-te, Mary, por tudo isso,
embora já não me possas escutar.

Agradeço pelo teu paciente sorriso
quando o coração estava prestes a quebrar,
quando a dor da fome te roía e o escondias, 
somente para o meu bem se preservar.
Abençoou-te pela palavra amável
quando triste, dorido o coração estavas a sentir
- oh, grato estou por teres partido, Mary,
para onde os pesares te não podem afligir!

Lanço-te um demorado adeus,
minha Mary, tão gentil e verdadeira!
Não te esquecerei, adorada, na nova
terra que será a minha hospedeira.
Dizem que há pão e trabalho para todos,
e o sol brilha forte ao passar de cada dia
- mas não esquecerei a velha Irlanda,
cinquenta vezes mais bela, sem fantasia!

Muitas vezes nos vastos e antigos bosques
sentar-me-ei e os olhos cerrarei,
e o coração retornará à terra nativa,
ao lugar onde a minha Mary enterrei;
e pensarei no pequeno degrau
onde nos quedámos lado a lado,
e no milho primaveril e na manhã de maio,
quando firmámos o nosso noivado.




Helen Selina Blackwood, Senhora de Dufferin (1807 - 1867) ¹








(Versão de Pedro Belo Clara a partir do original colectado em "Irish Verse, An Anthology by Bob Blaisdell" - Dover Publications, 2002)










(1) Nasceu Helen Selina Sheridan, em Inglaterra, descendente duma família de alta burguesia com origem na Irlanda. 
As artes desde cedo a envolveram: o seu avô paterno era o famoso dramaturgo irlandês Richard B. Sheridan (1751 - 1816), o seu pai, apesar de ter servido como soldado e desempenhado funções de administrador colonial, eram também um actor e a sua mãe, Caroline H. Sheridan (1779 - 1851), uma romancista inglesa. Não obstante o lado artístico da família, também o campo político foi palco das suas acções. 
Helen perdeu o pai com apenas dez anos de idade. Após o sucedido, a família, então a viver na actual África do Sul, regressa a Inglaterra e, por favor e graça do então príncipe regente, passa a habituar num palácio real, o Hampton Court. Helen viveu aí com a sua mãe, quatro irmãos e duas irmãs mais novas - uma delas seria famosa feminista Caroline Norton (1808 - 1877). A beleza física das três raparigas começou a ser intensamente elogiada pela sociedade, elas que a terão herdado da mãe Caroline, ao ponto de serem usualmente apelidadas de "As Três Graças". 
Aos dezoito anos desposa o Barão de Dufferin e de Claneboye, de quem tem um filho. A partir desta altura, todos os seus escritos passam a apresentar o nome que lhe ficou mais célebre: Helen Selina Blackwood, Lady of Dufferin. Depois de enviuvar, e passando alguns anos pelo meio, já com a idade de cinquenta e cinco aceita um novo casamento, tornando-se então a condessa de Gifford. Um terrível acidente, apenas volvidos dois meses, leva-a de novo à condição de viúva.
Viria a falecer em 1867, vítima de uma condição rara à época: cancro da mama. O seu filho Frederick, que sempre fora próximo da mãe, realiza uma edição póstuma dos poemas e canções de Lady Dufferin. Apesar de ter desfrutado dum óptimo estatuto e grande popularidade no século XIX, o seu trabalho, nos tempos posteriores, mergulharia num enorme esquecimento.
Sobre a escrita em si, há que dizer que a crítica nem sempre na época foi consensual. Com acusações de parco talento, frigidez poética ou imaginação limitada, também teve a sua quota parte de defesa e louvor, especialmente por Alfred P. Graves, já Helen não vivia. Os poemas e as canções foram, de facto, a sua maior especialidade (embora também tenha experimentado o teatro), e cultivava uma notória inclinação para a vida campestre e os camponeses da Irlanda donde descendia. 
O poema que aqui se traduz é o seu trabalho mais afamado, e também ele foi composto para ser cantado. Nitidamente centrado no período da Grande Fome, conta a história de um pobre camponês viúvo e sem o seu único filho, pelo que decide deixar para trás o lar e rumar, pelo que se presume, para a distante América, como tantos então fizeram. Tal como os restantes temas que Helen compôs durante a sua fase mais madura, também este se recheia dum sentimentalismo forte, triste e melancólico. 








(Imagem da capa do folheto musical, 
conforme foi impresso para o apresentar ao público americano)



sábado, 22 de dezembro de 2018

Uma bênção celta de Natal


Que sempre haja trabalho para as tuas mãos ocupar,
Que sempre haja em tua bolsa moedas a tilintar,
Que possa o sol sempre em tua janela reluzir,
Que após cada chuva possa um arco-íris surgir,
Que a mão dum amigo esteja sempre à disposição
E possa Deus encher-te de alegria o coração. 




(Anónimo)






(Versão de Pedro Belo Clara a partir de texto em inglês.)










(Para acompanhar a leitura, sugerimos o clássico "Silent Night" interpretado por Enya em gaélico. Festas felizes a todos os leitores deste humilde blogue. 












(Home For Christmas, 
por Thomas Kinkade)




sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

UMA VELHA MULHER DOS CAMINHOS


Oh, ter uma casinha, ser dona
De lareira, banquinho e tudo! Vê-de:
Os torrões amontoados no fogo,
Uma pilha de turfa encostada à parede!

Ter um relógio com pesos e correntes
E o seu pêndulo em dança afinada,
Uma cómoda cheia de loiça cintilante,
a branco e azul e castanho pintada!

Poderia estar ocupada o dia inteiro,
limpando e varrendo lareira e chão,
e arrumando de novo na prateleira
a faiança colorida, minha adoração!

Poderia nela ter sossego de noite,
sozinha diante da minha lareira quente;
com promessa de cama, mas hesitando
em deixar o relógio e a loiça reluzente.

Ai!, fatigada estou de neblina e escuridão,
estradas sem casa ou arbusto na cercania;
estou cansada do brejo e do caminho,
da solidão do silêncio e do vento em agonia!

Então rezo ao Deus nas alturas,
rezo-Lhe eu a toda a hora e instante
por uma casinha, uma casa só minha,
longe da chuva e do vento errante.



Padraic Colum (1881 - 1972) ¹








(Versão adaptada de Pedro Belo Clara a partir do original colectado em "Irish Verse, An Anthology by Bob Blaisdell" - Dover Publications, 2002)









(1) Estamos perante um dos maiores e mais significativos nomes do universo artístico gaélico, uma das figuras de proa do renascimento literário irlandês - ou não tivesse feito parte do grupo que fundou o Teatro Abbey, que contava, como se sabe, com W. B. Yeats, Lady Gregory e A.E., tendo inclusive sido membro da sua primeira direcção.
Nasceu Patrick Columb, no condado de Longford, actual República da Irlanda, na casa onde o seu pai à época trabalhava. Já com onze anos, a família muda-se para perto de Dublin e passa o pequeno Paddy a frequentar a escola local. Forma-se aos dezassete anos e é-lhe oferecido o trabalho de escriturário na companhia nacional dos caminhos-de-ferro, que manterá até aos seus vinte e dois anos de idade. Será neste período que inicia a produção dos seus primeiros escritos e trava conhecimento com autores de proa e indivíduos de grande influência. Além dos já citados, teria em James Joyce um amigo para a vida. 
Decide então alterar o seu nome para a forma gaélica mais aproximada, numa clara afirmação nacionalista, e mergulhando fundo do riquíssimo universo das canções populares irlandesas começa, juntamente com Herbert Hughes, por registar diversas delas pela primeira vez em papel. Quando se decide a lançar um livro em nome próprio começa pelo género que primeiro exerceu, a poesia. Pouco depois inicia a criação das suas peças de teatro. 
Com o passar do tempo e o crescimento da sua produção e talento, Colum funda um jornal que viria a durar pouco tempo, mas tal acto valeu-lhe o conhecimento da futura esposa. Juntos, desenvolveriam esforços significativos em prol da cultura na Irlanda, leccionando e albergando sessões literárias na sua própria casa.
Em 1914 o casal decide visitar os Estados Unidos, desconhecendo completamente a importância de um gesto aparentemente tão insignificante. Na verdade, será nesse novo país que o casal passará a maior parte dos anos de vida que ainda lhes restavam. 
Colum começa a escrever histórias infantis e, aos poucos, aprofunda a sua produção prosaica, que mais tarde também viria a abranger os territórios da biografia. Ao todo, sem contar com as peças de teatro, editará sessenta e um livros. Dando azo a uma grande versatilidade, em 1954 também assina o argumento do filme animado "Hansel e Gretel".
O casal empreendeu diversas viagens pela Europa, chegando até, nos anos 30, a viver em França. Mas os Estados Unidos eram definitivamente a sua casa, mesmo que a velha Irlanda nunca estivesse esquecida, e para lá eventualmente acabaram sempre por retornar. Mary morre em 1957, deixando o esposo só ainda por largos anos, pois somente em 1972 Colum faria a sua última viagem após uma vida recheada de êxitos, prémios e condecorações, contando já com noventa anos de idade. E onde? Nos Estados Unidos, claro está, embora o corpo tenha sido trasladado para a Irlanda natal, onde hoje repousa, em Dublin.










(Pormenor de "Old Lady Walking Through Country Dirt Path",
por Penny Lateulere)



sábado, 24 de novembro de 2018

OS CISNES SELVAGENS DE COOLE (1)


As árvores ostentam a sua beleza outonal,
Secos estão os trilhos do bosque agreste,
Sob o crepúsculo de outubro as águas
Reflectem a serenidade celeste;
Entre as pedras, sobre águas transbordantes,
Cinquenta e nove cisnes cintilantes.

Dezanove outonos se passaram
Desde que lhes fiz a primeira contagem;
Vi, enquanto terminava a tarefa,
Todos eles aprontar nova viagem,
Dispersando em grandes anéis quebrados
No volteio das asas em clamores ampliados.

Infatigáveis ainda, amante ladeando amante,
Deslizam em graciosidade
Nas frias e fraternas correntes ou erguem-se nos ares;
Seus corações não conheceram a velha idade;
Paixão ou conquista, vagueando ao sabor do desejo,
Ainda têm neles o seu ensejo.

Mas agora deambulam pelas águas serenas,
Belos e misteriosos;
Entre que juncos farão a sua morada,
Junto a que charco ou lago de recantos frondosos
Encantarão o olhar humano, quando um dia despertar
E descobrir eu que para longe acabaram por voar?





William Butler Yeats (1865 - 1939)









(Versão de Pedro Belo Clara a partir do original publicado em The Wild Swans at Coole, de 1919.)









(1) Trata-se de Coole Park, no condado de Galway, na Irlanda, à época a residência de Lady Gregory, uma estimada amiga de Yeats. O poeta vivia nas proximidades, pelo que a sua presença em tão distinta casa era bastante comum. Terá sido, então, numa das suas visitas ou estadia mais longa que este poema nasceu, em 1916 - tendo conhecido a sua versão definitiva três anos depois. 
Coole Park tornou-se a residência dos Gregory em finais do século XVIII, e impressionava pela beleza do edifício e principalmente pela imensa zona de mato selvagem, uma beleza pura e quase primordial. Aquando da morte de Lady Gregory, em 1932, a propriedade passou para a tutela do estado irlandês e, embora a casa já não exista actualmente, ainda hoje se mantém num conhecido e belo parque público. 










(Pôr-do-sol sobre o lago Coole, no parque do mesmo nome.)



segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A RECOMPENSA DAS FADAS


Uma noite, quanto Ianto Llywelyn se preparava para ir para a cama, ouviu um barulho do lado de fora da sua casa. Abriu a janela e perguntou quem era.

Ouviu uma voz límpida e doce que respondeu:

«Queremos um quarto onde possamos vestir os nossos filhos.»

Ianto abriu a porta e viu, com os seus próprios olhos, uma dezena de pequenas criaturas a entrar em sua casa, carregando ao colo bebés minúsculos. Aí fiaram umas horas, lavando e vestindo os bebés e, antes de o galo anunciar a manhã, foram-se embora, deixando a Ianto, como recompensa pela sua generosidade, algumas moedas de ouro.

Depois deste episódio, Ianto passou a acender a lareira todas as noites e a deixar, em cima da mesa, pão, água e leite, tendo ainda o cuidado de tirar da sala tudo o que fosse de ferro, pois as fadas abominam o ferro. E todas as noites as fadas visitavam a sua casa para aí cuidarem dos seus bebés, oferecendo-lhe sempre em troca algumas moedas de ouro.

Ianto deixou de trabalhar e passou a viver apenas com o dinheiro das fadas. Os seus rendimentos eram tão grandes que decidiu casar-se com uma mulher chamada Betsi. Passado pouco tempo após o casamento, esta começou a ficar muito curiosa sobre o modo como o marido arranjava tanto dinheiro. Mas, por muito que lhe perguntasse qual a origem da sua riqueza, Ianto sempre guardou silêncio sobre as visitas das fadas. 

Betsi tornou-se cada vez mais insistente, embora Ianto lhe explicasse que se lhe revelasse o segredo nunca mais ganharia um tostão. Betsi, porém, desconfiada por o marido deixar sempre a lareira acesa e comida na mesa, logo adivinhou que eram as fadas. Desesperado, Ianto confirmou as suspeitas da mulher e saiu de casa para ir afogar a sua inquietação numas canecas de cerveja. Mas quando levou as mãos aos bolsos para pagar, as moedas tinham-se transformado em pequenos pedaços de papel.

Desde esse dia que as fadas nunca mais regressaram a casa de Ianto, pelo que ele teve de voltar a trabalhar e a ganhar dinheiro com o suor do seu rosto.








(Conto extraído de "Os Tylwyth Teg ou Povo Belo".)









(Tradução de Angélica Varandas in "Mitos e Lendas Celtas do País de Gales", Clássica Editora, 2012.)











(Ilustração de Kinuko Y. Craft, 1940 - ... )