terça-feira, 12 de setembro de 2017

Dois poemas de Anthony Raftery


I. Raftery, eu sou


Sou Raftery, o poeta,
cheio de esperanças e amor,
de olhos que não possuem luz,¹
silêncio que não conhece dor.

Sigo na jornada para oeste,
guiado pela luz do coração;
enfraquecido e fatigado,
até ao fim desta peregrinação.

Observai-me todos, agora:
apoiando na parede os costados,
tocando as minhas melodias
para bolsos já esvaziados.



(Versão de Pedro Belo Clara a partir do original, sem dispensar a consulta das traduções para inglês de Douglas Hyde e Kevin Bradley). ²





II. (Estou velho)


Estou velho, a minha flor murchou.
Por tantas vezes do rumo me desviei.
Dias houve em que o pecado vivi,
mas em Tua graça esperança terei.



(Versão de Pedro Belo Clara a partir do original e com consulta da tradução em inglês de Críostóir Ó Floinn) ³







Antoine Ó Raifteirí (Anthony Raftery) (1779/84 - 1835) ⁴








(1) O autor faz uma óbvia referência à sua cegueira. Não nasceu com essa condição, pois muito jovem até trabalhou no estábulo de um proprietário local, em Sligo; adquiriu-a quando contraiu sarampo, também em tenra idade, a doença que sem piedade reclamaria a vida dos seus oito irmãos. Alguns contemporâneos, contudo, afirmaram que Raftery não seria totalmente cego, teria apenas grande dificuldade em ver, sendo capaz de distinguir obstáculos (que se lhe apresentariam em formas bastante enevoadas), mas dado o testemunho do próprio poeta na sua criação... não iremos entrar em discussões pouco significativas. 


(2) O poema, sumariamente biográfico, trata-se no fundo de uma pequena canção, das mais famosas do autor, profundamente humana e adornada por uma certa ironia auto-depreciativa e uma tristeza subtil, aquela que tão bem os autores irlandeses sabiam incutir. 
Uma versão da nota de cinco libras irlandesas chegou a apresentar no seu verso uma gravura onde se podia ler, em gaélico, a primeira quadra do poema. 
Embora as traduções referidas não apresentem rima, esta, por existir no original, manteve-se para a versão portuguesa no mesmo arranjo com que inicialmente surgiu.


(3) Terá sido este o derradeiro poema, sem título, que o autor escreveu em vida, também em gaélico. 
Conta-se a história de uma família que vivia perto do cemitério onde o corpo de Raftery está sepultado, que afirmava que numa noite invernal o poeta dirigia-se até lá, talvez em busca de abrigo, quando subitamente uma falha na sua saúde o fez vacilar. Terá então sido levado até uma outra residência perto do local, onde viria pouco depois a falecer, em plena véspera de natal. A dita família, dado o sucedido, viu o poeta como alguém abençoado, apenas pelo seu falecimento ter ocorrido em dia santo. Como no dia de natal ninguém trabalharia, foi colectado entre os vizinhos dinheiro para comprar um caixão, sendo Raftery enterrado no mesmo dia em que falecera. Se a quadra foi composta já na cama da família que o abrigou... é mistério que ainda não conheceu solução. 
O original apresenta rima e a tradução inglesa consultada manteve-a. Naturalmente, a portuguesa não se iria expurgar dela. Contudo, a versão inglesa foi um pouco mais longe e, para privilegiar rima e sentido, sugeriu palavras que o original não contém. Fiéis a este, pautámos a versão lusitana o mais próximo possível da gaélica, tanto quanto uma transferência do género o poderá permitir. Em inglês, por exemplo, surge a palavra "Deus" na última estrofe, enquanto é sabido que o poeta não a usa directamente («em Tua graça»). Um pouco mais adiante, para efeitos de rima, o tradutor em inglês recorreu à palavra "pray" ("orar"), expressão que Raftery não utiliza no seu poema (apenas "dóchais", ou seja, "esperança"). Ponderando sobre o que foi escrito, foi obviamente dada total prioridade à versão original.


(4) O poeta nasceu em Killedan, condado de Mayo, Irlanda, em 1779 ou 1784. Filho de um tecelão, o único dos nove que sobreviveu ao surto de sarampo, cedo iniciou-se na vida activa por forma a auxiliar monetariamente a sua família de parcos haveres. 
A sua cegueira pode muito bem ter contribuído para o ofício que o celebrizou, dado que era habitual os pais de uma criança cega incentivarem o estudo da música, pelo menos a aprendizagem de um instrumento, por modo a ter uma garantia futura na sua vida, apesar da deficiência física. Foi o que se passou com o nosso poeta, somado a uma voz afinada e a um talento inato para a composição musical e poética. 
Como muitos outros, na época, teve um patrono. Mas por razões que a própria história não define com clareza, dado o elevado número de versões que tentam explicá-la, o patronato não registou um serviço longo. Raftery decidiu-se então a vaguear pelo país, partilhando as suas canções e poemas com quem as quisesse pagar. Esse facto fez do poeta um dos derradeiros poetas errantes da Irlanda, um menestrel, um bardo deambulante - figura muito comum na Irlanda de outrora. Homem de baixa estatura, embora forte e ágil, distinguia-se pelo casaco de lã e calções de veludo que sempre envergava, além da sua fiel rabeca, companhia de tantas canções. 
O seu trabalho teve a peculiaridade de nunca ter sido escrito. Através dos esforços de amigos e admiradores dedicados, as rimas que compôs foram sendo compiladas. 
O grande vulto da literatura irlandesa, W. B. Yeats, foi um dos que mandou erigir junto à campa do poeta, em Craughwell, no condado de Galway, o memorial que em sua homenagem ainda hoje perdura.









(Uma das estátuas erguidas em memória do poeta, na Irlanda)




segunda-feira, 14 de agosto de 2017

QUATRO PATOS NUM LAGO


Quatro patos num lago,
uma orla ervada por afago,
azul primaveril no firmamento,
brancas nuvens ao vento:
que breve momento
a ser por anos lembrado,
em lágrimas recordado!



William Allingham (1824 - 1889) (¹)







(Versão de Pedro Belo Clara a partir do original compilado em "Irish Verse, An Anthology by Bob Blaisdell" - Dover Publications, 2002)








(1) Nascido em Ballyshannon, na região de Donegal, William Allingham, não obstante ter sido um funcionário de alfândega, granjearia fama através dos seus poemas de motivos bucólicos, retratando fielmente e com especial sensibilidade cenas e gentes da vida rural irlandesa. "The Faeries", "As Fadas", um dos seus primeiros poemas, ainda hoje pela crítica competente é considerado um dos seus mais bem conseguidos trabalhos. 
Notabilizou-se como uma das principais figuras literárias do movimento Pré-Rafaelita, instaurado em Londres com intenções de ruptura mediante o academicismo inglês e os preceitos classicistas ainda vigentes. O grande poeta W. B. Yeats confessou ter sido substancialmente influenciado pelo trabalho de Allingham. 
Na capital inglesa, precisamente, viria o poeta a falecer aos 65 anos. As suas cinzas foram levadas para a terra natal, tendo sido colocadas no cemitério da igreja local. 
Neste pequeno poema em particular, do qual se manteve o esquema de rima original, sobressai, quase à boa maneira do haiku, a arte de reter em palavras a imagem apreendida, deixando transparecer os efeitos que a mesma causou no "observador-poeta". Influências realistas e naturalistas fazem-se sentir. 
Posteriores autores transformaram este poema numa bonita canção infantil, ainda hoje cantarolada em diversas escolas primárias de língua inglesa. 










("Four ducks on a pond", by Alexander M. Koester)




quinta-feira, 13 de julho de 2017

VERMELHA É A ROSA


Desce a colina, formosa moça irlandesa,
desce a colina até aos braços do teu amado.
Uma rosa escolheste, amor, e eu um voto fiz:
para sempre serás o meu verdadeiro amor.

        Vermelha é a rosa que cresce nos jardins distantes, 
        e belo o lírio, no vale brotando aos rodos;
        pura é a água correndo do Boyne¹,
        mas o meu amor é o mais belo de todos.

Foi pelos verdes bosques de Killarney²
que vagueámos, a lua e as estrelas cintilavam;
o luar incidiu nos cachos dos seus loiros cabelos,
e então jurou para sempre ser o meu amor.

        Vermelha é a rosa que cresce nos jardins distantes, 
        e belo o lírio, no vale brotando aos rodos;
        pura é a água correndo do Boyne,
        mas o meu amor é o mais belo de todos.

Não é pela despedida a dor de minha irmã;
não é pelo sofrimento de minha mãe,
mas pela perda da formosa moça irlandesa
que o meu coração para sempre se parte.



(Anónimo) ³






(Versão adaptada de Pedro Belo Clara a partir da letra da canção popular mais comummente utilizada). 



(Embora proponham uma versão do tema com arranjos musicais que o afastam um pouco do seu cariz tradicional, o dueto de Órla Fallon (Celtic Woman) e Tommy Flamming distingue-se de entre os melhores. Por assim o julgar, aqui o propomos: https://www.youtube.com/watch?v=NBS5rqLY68U  ).




(1) O rio Boyne é um dos mais emblemáticos rios irlandeses, tanto pelo seu valor histórico como mitológico. Rico em salmão e truta, nasce no condado de Kildare até, seguindo a direcção de nordeste, desaguar na fronteira dos condados de Meath e Louth. O seu curso distende-se por mais de 100 Km, sempre rodeado pelo denominado "Vale do Boyne". Ao longo do mesmo, diversos castelos, cruzes celtas e ruínas de antigas cidades poderão ser encontrados. A batalha do Boyne, o maior conflito bélico da história da Irlanda, aí teve o seu lugar em 1690. Julga-se que deve o nome à deusa celta Boann, que significa "rainha" ou até "deusa", não sendo de estranhar que a tal figura se conceda a guarda do rio. 


(2) Killarney, do gaélico Cill Airne, que tem a curiosa tradução de "igreja de abrunhos", é uma cidade do sudoeste irlandês com um passado de fortes tradições religiosas. Foi nas suas imediações construído um mosteiro católico no ano de 640, cujo funcionamento permaneceu activo por mais de 800 anos (!), ao longo dos quais inúmeros documentos de grande valor foram aí copiados e produzidos. Dos seus mais procurados monumentos destacam-se o castelo Ross e a catedral de Sta. Maria. 


(3) Tratando-se de uma canção popular, é-lhe extremamente difícil atribuir uma autoria. Mas, investigando um pouco, certos aspectos poderão ser descobertos, desde logo o facto desta bonita canção ter raízes escocesas. É realmente impressionante o quão parecidas são ambas as melodias, e até ao nível da letra certas passagem revelam uma similaridade inquestionável.
A canção de base dá pelo nome de "The Bonnie Banks of Loch Lomond", ou "As formosas Margens do Lago Lomond", um tema celebrativo, não só do lugar que evoca, o lago Lomond, o maior da Escócia, como também para efeitos práticos, pois ainda é costume nesse país tocar-se esta canção no término de certas festividades. No entanto, é preciso sublinhar que a versão mais conhecida da canção não é a sua original. A que acabou sendo mais divulgada obteve publicação em 1841, mas aquela que a originou datará cerca de cem anos antes. Muitos especialistas julgam ter nascido do lamento de um jacobita após a batalha de Culloden, em 1745, que pôs fim à rebelião jacobita, instigada por um herdeiro da Casa de Stuart, por parte do exército britânico. O anónimo autor terá escrito várias linhas onde confessava a sua pena por não voltar a ver o seu amor, já que se encontrava aprisionado e o seu destino era a morte (decapitação, muito provavelmente). 
Já a versão irlandesa do tema, como se observou, parte de uma base totalmente distinta: não é mais do que uma canção de amor que, como muitas outras, acaba num coração partido. Talvez algum irlandês a tenha escutado de um escocês e assim desejado transpô-la para o seu universo pessoal, quem o saberá? A verdade é que os temas tem grandes semelhanças, sem que à versão irlandesa se anexe qualquer referência ao tema-mãe, isto é, uma simples nota dizendo: "inspirado em". Mas dentro do panorama tradicional, ou folk, é algo bastante comum, pois tal cuidado não era tido pelo mais comum dos indivíduos. Portanto, decerto que a melodia foi escutada, apreciada e reinterpretada dentro do universo irlandês. Posteriormente, o famoso cantor Tommy Maken foi o grande responsável pela sua popularização. 
Olhando mais atentamente a letra do poema, não se descobrem grandes causas para o afastamento dos amantes que tanto se queriam, mas diversos entendidos consideram esta canção como sendo uma "canção de emigração". De facto, a chave parece estar no começo da última quadra da canção: «Não é pela despedida a dor de minha irmã» (original: «It's not for the parting that my sister pains»). Ou seja, esta "partida" ou "despedida" foi sendo interpretada pelos estudiosos como um indício de estarmos perante uma referência ao enorme fluxo migratório que se registou na Irlanda durante o período da Grande Fome, nomeadamente entre 1850 e 1852, o que faz sentido, considerando que a canção já existia e já havia sido publicada por essa altura. Assim sendo, talvez seja justo considerar a emigração como a causa do afastamento do jovem casal, ficando o amado na Irlanda enquanto a amada era impelida a partir, provavelmente com a sua família, em busca de uma vida mais digna (Escócia, Inglaterra, Canadá e Estados Unidos eram os destinos mais comuns).
Sobre esta versão em português, muitos dos termos originais poderiam, em prol da harmonia geral do poema e da necessária condensação dos versos, por serem amiúde muito longos, ter sido traduzidos em outros de maior formalidade e beleza poética, porém o tecido tradicional da canção, simples, ficaria sem dúvida manchado. Portanto, seguindo a mesma toada directa e simples, sem grande laivo poético, se propõe esta versão. Dado que a original só possui rima no refrão da canção, o mesmo preceito foi para a edição portuguesa tido em conta - como, aliás, fará todo o sentido.










(The Emigrant's Farewell, por Henry Doyle)




segunda-feira, 3 de julho de 2017

A ILHA DE INNISFREE


Conheci uns rapazes
que disseram ser eu um sonhador.
Não tenho dúvida que haja
verdade em suas palavras,
pois decerto alguém está condenado a sonhar
quando tudo o que ama está longe.

São as coisas mais preciosas
sonhos rumo ao exílio;
conduzem-nos até à terra
que está do outro lado do mar,
especialmente quando se é um exilado
da bela e amada ilha de Innisfree.

Quando o luar espreita
do cimo dos telhados
desta grandiosa cidade,
por mais magnífico que seja
mal sinto o seu encanto ou riso:
de novo regresso a casa, em Innisfree.

Caminho por verdes colinas,
atravessando vales de sonho;
e encontro uma paz
que nenhum outro lugar conhece.
Escuto pássaros cantando 
melodias compostas para os anjos,
e observo os rios sorrindo
enquanto fluem. 

Então, até uma humilde cabana me dirijo,
o amado lar de sempre,
e com ternura encaro os rostos
das gentes que estimo.
Em redor da turfa ardendo na lareira,
de joelhos flectidos,
o rosário de suas vidas é contado. 

Mas os sonhos não duram,
embora não sejam esquecidos;
e em breve regresso
à austera realidade.
Mesmo que pavimentassem
estes passeios com oiro em pó,
ainda assim preferiria
a minha ilha de Innisfree.



Dick Farrelly (1916 - 1990) ¹





(Versão de Pedro Belo Clara a partir do original).



(Recomenda-se a belíssima versão apresentada pelo relativamente recente projecto Celtic Woman, que junta à nostalgia do poema a usual suavidade e doçura da voz feminina. Uma receita de sucesso, dir-se-ia -  https://www.youtube.com/watch?v=lh_aO4lT7IU ).





(1) Richard 'Dick' Farrelly foi um poeta e compositor irlandês que igualmente desempenhou funções como... polícia. 
Conta a história que o presente tema, sem dúvida a sua mais famosa produção, foi escrito e musicado durante uma viagem de autocarro desde a sua natal cidade de Kells, no condado de Meath, até Dublin, a capital da República da Irlanda. O tema foi lançado em 1950 e logo captou a atenção do público. Tanto que, dois anos depois, o conceituado realizador John Ford estreia o filme "The Quiet Man" ("O Homem Tranquilo"), com John Wayne e Maureen O'Hara como cabeças de cartaz, em que dá à melodia o estatuto de tema principal, escutado mais de dez vezes ao longo da película. Infelizmente, o seu criador não apareceu creditado na ficha técnica do filme, como lhe seria devido.
Para muitos críticos trata-se de uma das canções mais belas do riquíssimo acervo musical irlandês, e das mais importantes no que toca ao seu teor. De facto, nela o autor reflecte os anseios de todo o emigrante, a saudade sentida por quem está longe da terra que o viu nascer - um assunto que os irlandeses levam muito a peito, dada a história do seu país. O apego à terra e o desejo ardente do regresso fazem, assim, desta canção um instrumento com o qual muitos se poderão identificar. 
Innisfree é uma ilha deserta no norte da Irlanda, mas apesar de ter figurado num poema de Yeats, não é provável que Farrelly se referisse à mesma. Poderia, claro, ter pensado na sua terra natal, da qual partia durante a viagem em que o tema nasceu, mas esta não é uma ilha, pelo que a interpretação mais fiel recai sob a Irlanda em si, disfarçada num nome de interessante conotação. Pois, se "Free" facilmente se traduz em "livre" ou "liberto", "Innis" apresenta uma pronunciação muito próxima sonoramente de "Irish", que significa "irlandês", embora em gaélico "innis" signifique "ilha". Juntando as duas parcelas, talvez o enigma, caso exista, se torne mais claro.
Importa sempre referir que no seu original o poema, de linguagem simples e directa, apresenta uma grande irregularidade em termos de métrica e rima, aparecendo esta somente nos antepenúltimo e último verso de cada estrofe, por modo a rimar quase sempre com o nome da localidade em causa. Por isto, optou-se por retirar nesta versão a hipótese de rima, tornando o texto mais fiel à fluidez que originalmente contém. As estrofes também nem sempre apresentam o mesmo número de versos, e o grosso deste trabalho foi assim dirigido para a tentativa de tornar o texto mais poema do que letra de canção, respeitando sempre os preceitos básicos que se lhe adivinham.
Desde o seu lançamento, dada a fama de que justamente goza, este tema já ganhou vida de muitos modos distintos, através de diversas e competentes vozes, tanto masculinas como femininas, sem nunca expurgar-lhe da nostalgia mágica que exala. "A Ilha de Innisfree" parece, de certo modo, uma bonita utopia, na visão do emigrante que sonha regressar sem nunca o poder, que ganha asas sempre que o primeiro acorde soa no imaginário de cada ouvinte.







(Uma bonita paisagem do condado de Meath, região natal de Farrelly)





domingo, 4 de junho de 2017

A ÚLTIMA ROSA DO VERÃO


Eis a última rosa do verão,
deixada só, a florescer;
todos os adoráveis companheiros
murchando acabaram por morrer.
Não há flor sua semelhante
ou um outro botão no roseiral
para reflectir o seu rubor,
trocar um suspiro por outro igual.

Não te abandonarei, ó solitária,
na haste onde definharás!
Se os teus irmãos adormecem,
junto deles também repousarás.
Assim, espalho gentilmente 
tuas pétalas por minha cama,
onde os amigos do jardim
jazem sem aroma ou verde rama.

Em breve seguir-vos-ei,
quando as amizades ruírem
e da cintilante tiara do amor
uma a uma as gemas caírem. 
Quando os corações veros mirrarem
e os amados se perderem no vazio,
oh, quem então quererá habitar
sozinho este mundo sombrio?




Thomas Moore (1779 - 1852) (*)



(Versão de Pedro Belo Clara a partir do original).



(Para acompanhar a sua leitura, uma versão instrumental deste belíssimo tema: https://www.youtube.com/watch?v=Sf7AGXfXqag ).






(*) Thomas Moore foi um proeminente poeta, cantor e letrista irlandês, nascido na cidade de Dublin, no seio de uma família de parca cultura. 
Desde cedo revelaria um aguçado interesse nas artes em geral, chegando mesmo a cultivar ambições em se tornar actor - não obstante o sonho materno de o ver formado em Direito. Contudo, nem todas as artes performativas se afirmariam como o ponto forte de Moore. 
Enquanto estudava Direito em Londres, debatendo-se com graves problemas financeiros, o sucesso bateu-lhe à porta, fruto do seu trabalho como poeta, tradutor, letrista e cantor. O seu Irish Melodies ("Melodias Irlandesas"), publicado entre 1808 e 1834, que consistia num conjunto de canções tradicionais irlandesas às quais Moore anexou um poema, tornou-se imensamente popular. Lentamente foi ficando famoso entre o público em geral, granjeando igualmente uma destacada posição na sociedade londrina da época (chegaria a actuar perante uma jovem Vitória, ainda sem o peso da coroa, à qual deixou escrita uma canção em sua honra).
Moore travou amizade com outros importantes nomes da literatura britânica e mundial, nomeadamente Shelley e Lord Byron. Por este, inclusive, ficaria encarregado de publicar as suas memórias a título póstumo, mas dado o carácter vincadamente honesto das mesmas, e a pressão dos familiares do poeta nobre, decidiu-se por queimar o manuscrito sem nunca revelar o seu conteúdo, o que causaria a fúria dos admiradores de Byron. Posteriormente, editaria um conjunto de cartas e diários do seu falecido amigo, mas a crítica não lhe perdoaria o acto.
Viveria a infelicidade de assistir à morte de todos os seus cinco filhos. Mais tarde, um enfarte reduz-lhe significativamente as capacidades criativas. Falece aos 72 anos de idade, num momento em que já se sabia entregue aos cuidados da esposa. 

O poema hoje aqui partilhado foi retirado do famoso trabalho a que antes se fez referência. Publicado em 1813, assenta-se sobre a melodia que dava pelo nome gaélico de Aislean an Oigfear, isto é, "O sonho de um jovem". Os arranjos, como em outros casos, ficaram ao encargo de Sir John Stevenson (1761 - 1833).
Conta-se que o poema foi inspirado por um certo tipo de rosa oriunda da China, também denominada Old Blush (Rosa Chinensis), o que se torna curioso, ou talvez indicativo da veracidade desta assumpção, pois no poema em inglês o autor insere essa mesma palavra, "Blush" (p.e. "rubor" ou "enruborizar"), num dos seus versos. O presente trabalho terá sido escrito em 1805 no parque de Jenkinstown, em Kilkenny, na Irlanda - quem sabe se num lamento pela morte da última rosa de um verão já esquecido?













sábado, 27 de maio de 2017

TENRA IDADE, MADURA IDADE


Outrora exibia cabelos loiros, que como anéis
       sobre a minha testa em cacho tombavam;
grisalho e escasso, agora, este meu breve cabelo,
       sem o lustro que muitos lhe achavam.

Prefiro as cintilantes madeixas da juventude,
       ou como de um corvo a negra tonalidade,
que a boa madura idade, senhora de sombrios saberes,
       se o que dizem é realmente verdade.

Apenas sei, ao caminhar pela estrada fora,
       que mulher alguma fixa o olhar em mim;
julgam a cabeça como o coração: frígidos.
       Os meus melhores dias chegaram ao fim.




Anónimo (*)






(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Eleanor Hull)




(*) O presente poema encontra-se compilado, sem que nenhuma autoria lhe seja outorgada, no "The Poem-Book of Fionn", uma antologia do séc. XVII que reúne diversos textos oriundos de um período medieval tardio. 
A sua tradução inglesa foi elaborada, como antes se referiu, por Eleanor Hull (1860 - 1935), uma estudiosa da literatura irlandesa medieval, além de escritora e jornalista. Nasceu em Inglaterra e chegou a presidir a conceituada Irish Literary Society, de quem W. B. Yeats, juntamente com outros companheiros seus, foi fundador em finais do século XIX.
Embora seja desconhecida a autoria deste poema, provavelmente composto como canção, decerto muitos dos olhos que por ele se demorarem verão um reflexo dos próprios pensamentos de quem os ostenta, dada a ainda actualidade da preocupação transversal ao texto. Escrito numa quase jovialidade encantadora, revela uma essência deveras simples: nada mais que um lamento sobre a dolorosa passagem do tempo pelo Homem. Mas curioso é o modo de o constatar, focando-se o "eu" apenas na vasta cabeleira que já se dissipou e em como tal facto o afasta do olhar encantador das mulheres. 
Ao contrário de outras culturas, que louvam as benesses da idade madura (conhecimento, sabedoria, experiência) ao virar o foco para o interior humano, aqui tais encantos não são de todo reconhecidos, dado que o foco se fixa no exterior, e esse, claro, não poderá negar o infalível envelhecimento do corpo. Não deixa, contudo, de ser um texto tão humano quanto aquele que o compôs. 






(Autor e nome da peça desconhecidos)



sexta-feira, 5 de maio de 2017

A PERFEITA HARMONIA


Maio é o tempo da perfeita harmonia.
Trajado de negro, mal rompe a luz
O melro canta uma canção de clara alegria.
Nos campos se abraçam as flores e as cores.

O cuco saúda o verão majestoso com galhardia.
Passou o tempo dos dias ruins, a brisa é doçura.
No bosque as árvores de folhas se vestem,
E se foram nuas agora são sebe de verde espessura.

O verão vem chegando e corre sem pressa a água no rio.
Manadas ligeiras nas águas mansas a sede saciam.
Na encosta dos montes se espalha o azul do cabelo da urze.
E frágil e branca se abre a flor do linho silvestre.

A pequena abelha, de fraco poder, carrega em seus pés
Rica colheita oculta em flores. O gado pasta na erva tenra
Dos verdes prados. Na sua tarefa não há fadiga:
A formiga vai e depois vem para logo ir e nunca parar.

Nos bosques a harpa tange melodias, música de paz
Que acalma a tormenta que o lago agitara.
E o barco balouça de velas dormidas,
Envolto na bruma da cor das flores do tempo de Maio.

Na seara escondida, e de sol a sol, solta a codorniz
Um canto de energia como um bardo real.
Esguia e delgada, mui branca e pura, saúda a cascata,
Em murmúrio de prata, a calma serena do arroio que a bebe.

Ligeira e veloz, no céu a andorinha é um dardo negro.
Há música que paira na encosta e no vale, nos montes em          [volta, a cintilar.
Os frutos do verão já se anunciam em gomos formosos.
Cantam as aves na ramaria e no rio os peixes pulam e                [saltam.

O vigor dos homens de novo renasce e ao longe a montanha
Mostra sem medo a sua glória, altiva e sem mácula.
Da crista ao chão, as árvores do bosque são uma festa
De verde e de folhas; e a planura é um lavor de cores e              [flores.

Os dias de Maio são de alegria e de esplendor,
Quando as donzelas sorriem de orgulho pela sua beleza
E jovens guerreiros se mostram mui hábeis, ágeis e                    [esbeltos.
Os dias de Maio o verão anunciam, o tempo é de paz.

E no céu azul há uma criatura que é ave inocente.
Pequena e frágil, de límpida voz de água clara,
Canta a cotovia maravilhas e contos em que apenas diz
Que a perfeita harmonia é o tempo de Maio.






(Autor desconhecido, sécs. IX / X)








(Tradução de José Domingos Morais in "A Perfeita Harmonia - Poemas Celtas da Natureza", Assírio & Alvim, 2004)