terça-feira, 24 de abril de 2018

Três poemas de amor da tradição oral galesa


I. A raiz e o ramo


Não vejo razão para assim mostrares
os olhos zangados.
Será porque há outras que olham meus olhos
e gostam de mim?

Devias saber que o vento ao soprar
os ramos agita
mas seja quem for, só com enxada
arranca a raiz.



II. Os passos leves


Não há outra estrela como a minha amada,
flor das flores da minha aldeia.
Sob os seus passos não se move a erva,
nem a rocha treme quando a ave pousa.



III. Jamais o sol


Belo é o sol quando sorri
em plena glória.
Bela é a lua e o seu sorriso
na noite serena.
Mais belo, porém, o riso suave
do meu amor.

Bela é a lua vogando nas ondas.
Belas as estrelas no brilho da noite.
Mas nunca as estrelas, jamais a lua,
terão a beleza, um pouco sequer,
da cor e da luz que moram nos olhos
do meu amor.




Anónimos (Séc. XVII)






(Tradução de José Domingos Morais in "O Imenso Adeus - Poemas Celtas do Amor", Assírio & Alvim, 2004)











(Fleurs de Cerise, de Émile Vernon (1872 - 1919))





domingo, 1 de abril de 2018

PÁSCOA DE 1916 (excerto) (*)


Um sacrifício demasiado longo
Pode em pedra o coração tornar.
Oh, quando será suficiente?
Isso aos Céus compete, a nós nos cabe
Murmurar nome após nome,
Como mãe que seu filho chama
Quando enfim o sono desce
Sobre as pernas que correram loucamente.
Que é isto senão o anoitecer?
Não, não, não é a noite mas a morte;
Foi então inútil a morte?
Que a Inglaterra sua fé guarde
Apesar de quanto se fez e disse.

O sonho deles conhecemos; basta-nos
Saber que sonharam e estão mortos;
E que importa se por excessivo amor
Enlouqueceram até à morte?
Em verso aqui o escrevo - 
MacDonagh e MacBride,
Connolly e Pearse
Agora e seja onde for,
Algures onde impere o verde,
Mudaram, mudaram completamente:
Uma terrível beleza nasceu.




W. B. Yeats (1865 - 1939)






(Tradução de José Agostinho Baptista in "W. B. Yeats - Uma Antologia", Assírio & Alvim, 3ª Edição: Abril de 2010)






(*) Este longo poema de Yeats faz referência à célebre Revolta da Páscoa, ocorrida entre 24 e 30 de abril de 1916, e que se afirmaria como o mais importante movimento independentista ocorrido na Irlanda desde a rebelião de 1798. 
Aproveitando o comprometimento inglês com o maior conflito então vigente, a Iª Guerra Mundial, um proeminente grupo de republicanos, a Irmandade Republicana Irlandesa, reivindicou a independência do território e, em acto final, declarou a instauração da República. O professor e advogado Patrick Pearse comandou os Voluntários Irlandeses e uniu-os ao Exército Civil liderado por James Connolly, o que, em conjunto com outros grupos menores, totalizou uma força de pouco mais de 1200 homens contra 16000 tropas inglesas e 1000 polícias armados.
O conflito durou seis dias e travou-se essencialmente na capital, Dublin. Apesar de algumas escaramuças pouco significantes noutros locais do país, a cidade principal viria a ficar parcialmente destruída no final da contenda. Lamentavelmente, e apesar de consideráveis baixas terem sido infligidas na facção colonizadora, dada a diferença de forças e recursos, as baixas civis foram as mais significativas, muitas delas ocorridas em situações de fogo cruzado ou sob o peso da artilharia inglesa. Do total de vítimas contabilizado, 54% eram civis totalmente desarmados.
A revolta terminou com a rendição incondicional das forças rebeldes, o que dias depois levaria à execução de todos os seus líderes, no poema lembrados com reverência pelo autor. Mas, como Yeats escreveu, e bem, mais um precedente havia sido aberto e, daí, «Uma terrível beleza nasceu». Afinal, a tão desejada independência estaria a uns meros cinco anos de distância.







(Birth of The Irish Republic, de Walter Paget (1865 - 1935))





sexta-feira, 23 de março de 2018

O CONDENADO DE CLONMEL (1)


Quão madrasta a minha sorte,
e vãos os meus lamentos!
A firme corda do destino lança
sobre o jovem pescoço seus tormentos.
Já toda a força me desertou; 
o rosto encova-se e perde expressão,
enquanto definho acorrentado
em Clonmala, na prisão.

Nunca nenhum rapaz da aldeia
foi até hoje mais bondoso:
se jogasse² com uma criança
o meu jogo não seria rigoroso.
Dançaria sem qualquer fadiga
de manhã até ao anoitecer,
e a bola que à baliza lançasse
os relâmpagos do Céu iria conhecer.

Aos pés da minha cama, apodrecendo,
o meu bastão de jogo repoisa;
pelos rapazes da aldeia voa
a minha bola, como simples coisa;
o meu cavalo abandonado
pode o hábito do trabalho perder,
enquanto na prisão de Clonmala
em correntes me vejo enfraquecer.

No Domingo próximo, o patrono
estará em casa como guardião;
e os jovens e sadios hurlers
o campo de jogo varrerão. 
Com a dança de doce raparigas
o anoitecer consagrar-se-á,
enquanto este coração, outrora alegre,
em Clonmala esfriará.




(Anónimo - provavelmente séc. XVIII) ³







(Versão de Pedro Belo Clara a partir da versão inglesa, desde o original em gaélico, de J.J. Callanan (Cork, 1795 - Lisboa, 1829), compilado em "Irish Verse, An Anthology by Bob Blaisdell" - Dover Publications, 2002)





(Caso o leitor pretenda escutar a versão musicada do tema, propõe-se a interpretação de Liam Clancy, nome maior do folk irlandês: https://www.youtube.com/watch?v=sQp4ugV7rtg )







(1) Clonmel, em gaélico Cluain Meala, ou "o prado do mel", é a capital do condado de Tipperary, no sul da República da Irlanda. 
A cidade ficou famosa por resistir estoicamente, no século XVII, ao cerco levantado por Oliver Cromwell, aquando de uma invasão inglesa do território para pôr cobro a diversos focos revoltosos. Apesar dos esforços, a capitulação foi inevitável - mas a guarnição sitiada conseguiu escapar a meio da noite.
O outro termo que o tradutor decidiu utilizar, "Clonmala", é somente uma diferente anglicização do nome da cidade em gaélico. 


(2) O jogo em causa, e ao qual se fazem diversas referências ao longo do poema-canção, é o Hurling, um jogo tradicional irlandês de origem celta. 
Semelhante ao hóquei de campo, julga-se que seja jogado há cerca de três mil anos, não obstante as naturais alterações de regras. É um dos desportos mais populares na Irlanda, e tempos houve em que era disputado com tremenda pompa e zelo entre paróquias, províncias e até condados. Letrado ou camponês, todos tinham a ele um livre acesso.
Actualmente, o jogo comporta quinze jogadores de campo por equipa, munidos de um capacete, e as balizas têm postes superiores, como no rugby, e uma rede abaixo destes, como no futebol. A pontuação difere consoante por onde a bola passe. Os hurlers citados no poema são obviamente os praticantes deste desporto que incorpora os "Jogos Gaélicos", disputados anualmente.
Pode parecer natural situar o condenado que nos conta os seus lamentos num espaço temporal em que deste jogo se elaboravam grandes festejos, bem como ver nele um regular praticante deste desporto. Será isso totalmente verdade? Em breve veremos. Por ora, repare-se como admite que, por ser bondoso e gentil, não levava o jogo a sério quando jogava contra uma criança, como lamenta que o seu bastão esteja a apodrecer e a sua bola saltite por entre as mãos dos jovens da sua aldeia. Um pouco mais à frente, existem referências a todo o clima de festa que circundava a realização destas partidas: o patrono (patron, em inglês), que se presume ser um santo, a zelar pela equipa, os rapazes a varrerem o campo (ideia que o uso do bastão no jogo sugere), as danças de belas raparigas a encerrar a noite. O condenado, sozinho, apenas poderá lamentar a sua "sorte madrasta".


(3) Este poema, que posteriormente seria musicado, surge antologiado pela primeira vez em 1845, num livro organizado por Charles Duffy. Desde logo se creditou como anónimo, pertença da tradição oral, devendo-se, como disso já se fez nota, a tradução ao poeta e professor J.J. Callanan, que curiosamente viria a falecer em Lisboa. 
A sua ligação ao desporto denominado Hurling é deveras notória. Apesar da sua grande popularidade na Irlanda, sabe-se que só a partir de 1870 é que se deu a ressurreição do jogo. Em décadas imediatamente anteriores a essa, só em pequenas partes da Irlanda é que se continuava a sua prática, pelo que será seguro afirmar que o autor do poema, ou o seu protagonista, caso se tratem de indivíduos diferentes, terá residido num desses locais. Mesmo havendo a referência à cidade de Clonmel, não significa que o jovem condenado fosse daí originário. 
O poema tem a sua antiguidade, tanto mais que foi escrito em gaélico. Não será um critério exclusivo, mas ajudará a atestar a sua idade. No entanto, ainda sobeja a questão: que crime tão hediondo terá cometido este jovem que adorava dançar e jogar Hurling para ter o destino da forca? Se seguirmos um critério histórico, deparamo-nos com a rebelião de 1848, mas aí é sabido que os conspiradores, apesar de capturados, julgados e condenados à forca, foram posteriormente perdoados de tal fim. Além disso, a data do livro de Duffy, sendo anterior, não permite aceitar tal ideia. Recuando ainda mais, temos a insurreição de Emmet, um nacionalista irlandês que por conta do seu crime faleceu na tenra idade de vinte e cinco anos, em 1803. Contudo, ainda não valida a data que o tradutor lhe colocou. Sobra, portanto, a malograda revolta de 1798, mas sem qualquer suporte válido torna-se uma ideia tão bela quanto qualquer outra.
Apenas se sabe que em Clonmel esteve preso este jovem que parecia ter ainda tanto para viver. O seu amado desporto foi abandonado, o seu cavalo de trabalho deixado vaguear pela vizinhança, as belas raparigas continuaram a dançar sem ele. Seja qual tenha sido o crime, ainda em vida sofreu as duras consequências do seu acto. Justamente? Ora, esta parece ser a questão central. Baseando-se em dois versos que parecem atestar a sua inocência («Nunca nenhum rapaz da aldeia / foi até hoje mais bondoso»), certos estudiosos afirmam que o pobre jovem terá sido condenado sem causa válida, daí o lamento. No século XVIII, conforme datou o poema o seu tradutor, existiu de facto um grupo secreto de revoltosos irlandeses denominado "whiteboys", ou "rapazes brancos", que essencialmente empreendia acções violentas contra nobres ou proprietários de grandes terras em benefícios dos agricultores ou do trabalhador mais humilde que aí operasse. A situação descontrolou-se ao ponto de ser necessária uma intervenção militar para terminar com o movimento. Segundo essa óptica, este pobre rapaz foi erroneamente identificado como um membro do grupo rebelde, sofrendo então o seu trágico fim.
Pela grande simpatia que o povo irlandês parece nutrir para com poemas e canções que retratem prisioneiros, nomeadamente revoltosos contra o domínio britânico, este tema figura entre os mais célebres do género no cancioneiro tradicional do país.






(The Convict, por Marcus Stone (1840 - 1921))



sexta-feira, 9 de março de 2018

A Rosa de Tralee


A pálida lua erguia-se sobre o verde monte,
o sol tombava por detrás do azul mar; assim os vi,
enquanto deambulava com o meu amor até à fonte
cristalina que nasce no belo vale de Tralee¹.

        Era encantadora e bela como a rosa do verão,
        ainda que não fosse só a beleza a me cativar;
        foi a verdade daqueles olhos, a cada amanhecer,
        que Mary, a Rosa de Tralee, me fez amar.

As frias sombras do anoitecer o seu manto abriam,
e Mary, sorrindo, escutava-me com atenção;
pelo vale, os lívidos raios lunares se vertiam,
quando da Rosa de Tralee ganhei o coração.

        Embora encantadora e bela como rosa de verão,
        não foi só a sua beleza a me cativar;
        foi a verdade daqueles olhos, a cada amanhecer,
        que Mary, a Rosa de Tralee, me fez amar.

Na Índia distante, nas agitações da guerra que farta,
a sua voz foi um alívio, todo o conforto que senti;
mas a gélida mão da morte agora nos aparta.
Estou só nesta noite, sem a minha Rosa de Tralee.

        Era encantadora e bela como a rosa do verão,
        ainda que não fosse só a beleza a me cativar;
        foi a verdade daqueles olhos, a cada amanhecer,
        que Mary, a Rosa de Tralee, me fez amar.





William Pembroke Mulchinok (1820 - 1864) ²





(Versão adaptada de Pedro Belo Clara a partir do original, com a preservação do esquema de rima escolhido pelo autor.)




(De entre as variadíssimas versões deste tema, sugere-se a de John McDermott, certamente uma das mais bem conseguidas: https://www.youtube.com/watch?v=uj9h1Vp5x3c . Desfrute.)






(1) Tralee, ou Tráigh Lí, significando "Vertente ou Margem do Lee" (um rio), é a maior cidade do condado de Kerry, na região sudoeste da Irlanda, sendo igualmente a sua capital. 
Além de ser o local de confluência de vários pequenos rios, de Tralee partia, em tempos muito remotos, uma estrada que atravessava as montanhas a sul do lugar, e cujos vestígios ainda são identificáveis. Por essa rota, é possível chegar a um conjunto de rochas ordenados com um rochedo no topo chamado "O túmulo de Scotia", pois julga-se que uma filha de um faraó egípcio tenha aí sido enterrada, conferindo à localidade uma importância histórica tremenda. (Scotia ou Scota, que significa "rebento de flor", é considerada, para efeitos mitológicos, a mãe dos irlandeses, sendo mais tarde a partir daí que a Escócia receberia o seu nome). 
A cidade foi fundada no século treze por anglo-normandos, tendo sido incendiada por ordem de Isabel I de Inglaterra, em 1580, como retribuição pelo papel dos locais numa rebelião contra a coroa inglesa. 



(2) Apesar deste popular tema do cancioneiro tradicional irlandês ser por vezes atribuído a  um outro autor, parece existirem cada vez mais evidências que fazem de Mulchinok o seu criador por completo direito. Este, autor de diversos poemas, e que em diversos meios nem é tido por poeta de renome, nasceu em Tralee, no seio de uma abastada família protestante.
A canção-poema que hoje se apresenta terá surgido numa fase inicial da sua vida de adulto, pois professa a profunda paixão que nutriu por uma rapariga católica de origens muito humildes, Mary O'Connor. Natural da mesma região, era filha de um sapateiro e de uma empregada doméstica. Aos dezassete anos entra na casa dos Mulchinok como ajudante de cozinha, mas rapidamente assume o papel de ama das sobrinhas do poeta. É precisamente numa das visitas que este realiza às suas sobrinhas que encontra pela primeira vez Mary e por ela se apaixona perdidamente.
A família, como seria de esperar, não recebeu bem a notícia, tendo ficado especialmente alarmada quando soube que William escrevia e enviava poemas para Mary. Ademais, na mesma altura descobre que o jovem poeta contribuía literariamente para o jornal "The Nation", uma publicação subversiva que aclamava a revolta armada de todos os irlandeses contra a coroa britânica. Ora, a família, sendo protestante, era totalmente leal à soberania inglesa.
Em 1843, William liderou um grupo de homens modestamente armados até ao lugar onde se daria uma discussão eleitoral. Uma escaramuça entre grupos rivais tem início e um homem acaba por morrer. Fatidicamente, as autoridades responsabilizam William pelo acto. Encontrava-se já noivo de Mary, mas com um mandato de captura por homicídio em seu nome a circular, rapidamente compreende que deve deixar o país. Assim, embarca para a Índia, onde se torna correspondente de guerra.
É durante este período da sua vida, pelas cartas que então ia escrevendo, que se verifica o aparecimento do carinhoso nome que deu à sua amada, a "Rosa de Tralee". Presente em muitas das suas linhas, faz-nos crer, pelo modo corrente do seu uso, que o apelido terá surgido ainda antes da sua partida para o oriente.
Graças ao notável trabalho de cobertura no território, as autoridades militares decidem mais tarde intervir a seu favor no processo, ilibando-o de todas as acusações. Assim, na primavera de 1849 regressa finalmente à sua terra natal. Infelizmente, e este é sem dúvida o aspecto mais implacável e trágico da sua existência relativamente curta, o dia em que chega a Tralee é precisamente o mesmo do funeral da sua bem amada. 
Embora devastado, apressa-se a casar com uma mulher que conhecia há largos anos e a partir com ela para os Estados Unidos. Torna-se pai de dois filhos, publica (em 1851) uma colecção dos seus poemas e em 1855 decide regressar à Irlanda, deixando a mulher e dois filhos para trás. 
Ainda oprimido pelos trágicos acontecimentos que se abateram sobre ele e Mary, além do próprio falhanço do seu casamento, entrega-se tristemente a uma vida de alcoólatra, decisão essa que contribuiria fortemente para o seu rápido fim de vida.
Resta acrescentar que a melodia feita para este poema é da autoria do violinista inglês Charles William Glover, falecido um ano antes de William. O tema adquiriu renome internacional quando John McCormack o cantou em "Song O' My Heart", de 1930. Desde 1959 realiza-se em Tralee um concurso de beleza, dos mais importantes a nível nacional, que anualmente elege a nova "rosa de Tralee".





(Mary O'Connor e William P. Mulchinok, ambos segurando uma rosa
na estátua erguida em sua memória)



terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A SOLIDÃO DO EREMITA


Só, na minha choupana,
Sem companhia de um ser humano
Como é ameno peregrinar pela vida fora
E chegando ao fim achar a morte.

Em remota choupana escondido do mundo
Busco o perdão dos meus pecados.
Sereno e em paz, limpo e sem mancha
Eu quero bater às portas do Céu.

Costumes austeros ensinam o corpo
O caminho direito da santidade
Caminho trilhado com ousadia
E olhos em lágrimas rogando perdão.

Domar e secar o desejo impuro
Renunciar ao apelo do mundo
Um pensamento vivo e sem mácula
É a maneira de alcançar perdão.

Olhar as nuvens e pedir ao céu
Com ansiedade e devoção e muito fervor
Que aceite e creia na confissão
Das minhas lágrimas correndo em rio.

Um leito frio áspero e duro
Tal como o catre dos condenados
Um sono breve e receoso
E orações pela noite fora e madrugada.

Parco e frugal o meu alimento
É quanto basta e mais não preciso.
Não haja dúvida que não serviria
Esquisita exigência e farto apetite.

Uma côdea de pão de peso mui leve
Que eu agradeço com reverência.
A água da fonte que brota no monte
É a cerveja que há p'ra beber.

São magros comeres aqueles que tenho
Mas os enfermos são saciados.
Não há querelas disputas e brigas
Apenas paz e calma serena na consciência.

Um dia terei um rosto puro
Marcado pelos sinais da saintidade
as faces lavradas de rugas profundas
A pele queimada curtida e seca.

Os Evangelhos apontam as veredas
Que trilho cantando os Salmos e Horas
Guardando silêncio e sem escutar palavras vãs
Orando a Deus de joelhos no chão.

Espero a visita do meu Criador
Que é o meu Rei e o meu Senhor.
Meu coração não tem descanso a procurá-lo
No reino eterno onde reside.

Que o vício abandone igrejas e lares
Que eu ache uma cela pequena e simples
Entre lajes e túmulos em plena paz
Onde esteja só, comigo e com Ele.

Onde esteja só na minha choupana
Só com o meu espírito e meu coração.
Só, eu vim ao mundo e vi a luz
E só, eu quero abalar do mundo.

Se por viver só eu fiz o mal
E cedi ao mundo e ao seu orgulho
Ouve o meu lamento e diz-me Senhor
Por que consentes na solidão!




Anónimo (Sécs. VIII ou IX) ¹







(Tradução de José Domingos Morais in "O Grito do Gamo - Poemas celtas da Fé e do Sagrado", Assírio & Alvim, 2004)







(1) Embora se desconheça o autor deste longo e confessional poema, pela sua provável data de criação é fácil de se atribuir a autoria a um dos primeiros monges que terão viajado até à Irlanda, depois da evangelização da ilha por S. Patrício. É provável que já tivessem sido erigidas algumas igrejas e mosteiros, embora o autor admita viver numa choupana e ter o desejo de encontrar «uma cela pequena e simples». Tal afirmação torna legítimo questionar se ainda não estariam completas tais construções ou se o eremita vivia ao ar livre por sua vontade, não obstante o tal desejo que expressa. 
Na verdade, sabe-se que o cenário com que se depararam muitos monges que viajaram para a ilha era veramente idílico: florestas por desbravar, rios correndo livres, animais povoando os vales, pássaros colorindo as matas. Tais características tornariam nos próximos séculos a Irlanda num local de meditação e contemplação privilegiadas, uma espécie de eremitério ideal para diversos monges, com os copistas a se tornarem nos mais conhecidos dentre eles. Quanto ao nosso autor, é óbvio que seria católico, mas não seria copista, antes alguém que escolheu a solidão dos bosques para elevar o seu espírito a Deus (embora a última quadra do poema tenha permitido reflectir uma dúvida íntima extremamente interessante, capaz de colocar em causa a própria opção de vida). Também não dispomos de informações sobre a que ordem pertenceria ou até se não seria um nativo convertido, pelo que tais questões ficarão ao critério da imaginação de cada um. 








A Hermit, de Gerard Dou (1613 - 1675)






sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Dois poemas irlandeses anónimos



I. Dúvida


Por mim não sei nem quero saber
com quem vai dormir o moço garboso;
mas sei muito bem, de mui certa ciência,
que não é sozinho que à noite se deita.


(Século IX)






II. Desconfia dos homens


Falso amor é o amor dos homens,
mal da mulher que neles confia.
De falas doces, mui meigas,
nada revelam do seu coração.

Nos seus segredos não creias
e em suas mãos carinhosas.
Não creias no sabor dos beijos,
anúncio vil de males de amor.

Não creias que haja homem no mundo
que seja o destino de uma mulher.
Eu posso contar-te meu sofrimento,
a imensa dor que me atormenta.

Oferecem o ouro, oferecem a prata,
oferecem tesouros e pedras de preço.
Oferecem também casamento escrito,
mas tudo esquecem ao raiar do dia.

É inconstante o amor dos homens,
é ilusão de mim e de muitas.
A ninguém desejo a minha sorte,
mal da mulher que me segue os passos.


(Século XV ou XVI)





(Tradução de José Domingos Morais in "O Imenso Adeus - Poemas Celtas do Amor", Assírio & Alvim, 2004)








La Mélancolie,
Louis-Jean-François Lagrenéé (séc. XVIII)




segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

AS AVES BRANCAS


Desejava que fôssemos, amada, 
aves brancas na espuma do mar!
Fatiga-nos a flama do meteoro,
antes que escape e se possa apagar;
e a flama da anil estrela do crepúsculo,
no contorno do céu, baixa, a se erguer,
despertou nos corações, amada,
uma tristeza que talvez não venha a morrer.

Um cansaço nasce desses dois sonhadores
cobertos de orvalho, o lírio e a rosa;
ah, com eles não sonhes, amada,
com a chama do meteoro, fogosa,
ou a chama da estrela anil do crepúsculo,
cintilando baixa quando o rocio cai,
pois em aves brancas desejaria que nos 
tornássemos, sobre a espuma que errante vai. 

Incontáveis ilhas me encantam,
bem como Danaan¹ e as suas margens,
onde o Tempo decerto nos esqueceria,
e o Lamento em nós não teria suas roupagens;
em breve, longe da rosa e do lírio,
libertos das chamas iríamos estar,
apenas se aves brancas fôssemos, amada,
flutuando na espuma do mar!






William Butler Yeats (1865 - 1939)











(Versão adaptada de Pedro Belo Clara a partir do original publicado em The Countess Kathleen and Various Legends and Lyrics, 1892)








(1) O autor provavelmente refere-se à Grécia, uma vez que "Danaans" (em grego, "Danaoi") foi um dos nomes que Homero utilizou na sua Ilíada para se referir aos habitantes daquele país, sendo que um deles ainda vigora até hoje: Helénicos.




Nota: Importa sublinhar que a versão apresentada é somente uma entre várias possíveis, talvez até se distanciando, e muito, da mais bem conseguida de todas, embora se tenha laborado nesse sentido. Optou-se por manter a rima devido à belíssima cadência que nos oferece, mas o esquema teve de ser fragmentado. No original, o poema já apresenta versos algo longos que, ao serem traduzidos com a fidelidade exigida, ainda mais longos se tornam em português. Reduzindo-os, seria quase impossível, quer-nos parecer, preservar a intenção do autor em rimar os seus versos sem alterar significativamente a essência do texto. Portanto, as quadras originais foram quebradas em oitavas, abdicando assim dum esquema de rima emparelhada (aa/bb) para apresentar um esquema onde somente os versos pares rimam. É um risco, compreendemos, e decidimos corrê-lo - com o máximo respeito pelo texto criado por um dos mais inspirados autores irlandeses de sempre. 











("White Birds" - Autor desconhecido)