terça-feira, 10 de julho de 2018

A ROSA SECRETA


Distante Rosa, secretíssima e inviolada,
Toma-me na hora para mim destinada,
Onde quem no Santo Sepulcro te procurou,
Ou no tonel de vinho, vive para lá do que o perturbou
E do tumulto dos sonhos derrotados; e no fundo,
Entre pálidas pálpebras pesadas de fecundo
Sono, o Homem nomeou a beleza. Nas tuas folhas o tesouro
De barbas ancestrais, os elmos de rubi e ouro
Dos Magos coroados; e do rei¹ que com seus olhos viu
As Mãos Perfuradas e a Cruz Antiga que subiu
Em druídico vapor, as tochas apagando
Até ao vão delírio por que ele tombou agonizando;
E desse² que encontrou Fand³ por entre orvalho fulgente,
Numa costa sombria onde jamais soprava o vento,
E por um beijo dela perdeu o mundo e Emir⁴;
E desse que fez os deuses saírem da cidadela⁵
E, até despontarem cem rubras auroras, celebrou
E sobre as campas dos seus mortos chorou;
E do rei orgulhoso e sonhador⁶ que recusou o fardo
Da coroa e da mágoa e, chamando bobo e bardo,
Errou na floresta entre viandantes de vinho manchados;
E desse que vendeu a casa e as terras e os arados⁷,
E buscou por ermos e ilhas um tempo infindo
Até enfim encontrar, chorando e rindo,
Uma mulher de porte tão radioso e belo
Que à noite os homens debulhavam milho sobre seu cabelo,
Uma fina trança furtada. Também eu aguardo com ardor
A hora da tua rajada de ódio e amor.
Quando do céu se hão-de as estrelas atear
Como fagulhas de uma forja, e expirar?
Chegou seguramente a tua hora, sopras a forte rajada
Distante Rosa, secretíssima e inviolada?




W. B. Yeats (1865 - 1939)







(Tradução de Margarida Vale de Gato in "Onde Nada Existe", W. B. Yeats, Relógio D'Água Editores, 2000)








(1) Trata-se de uma referência a Conchobar, um rei do Ulaid ou Ulster, um pequeno reino onde hoje existe a Irlanda do Norte, e que terá subsistido entre os séculos V e XII.
É possível que se trate efectivamente de uma personagem real, mas a sua vida é contada no seio de tanta fantasia que a dúvida subsiste. Além disso, os contos sobreviventes que relatam a história deste e outros monarcas, bem como doutros personagens relevantes, pertencem a um capítulo da mitologia irlandesa denominado "O Ciclo de Ulster", pelo que será sempre ténue a fronteira entre realidade e fantasia.
Resta acrescentar que, mais tarde, Yeats admitiu ter cometido um erro no verso em questão. Segundo a história, Conchobar não teve qualquer visão sobre o crucifixo na hora da sua morte, esta fora-lhe antes contada - e então daí resulta o seu estranho falecimento. A história conta-se, é preciso que se diga, numa linha de forte influência cristã. Não obstante, o poema de Yeats permaneceu sem alteração.


(2) "Esse" é somente o maior guerreiro e herói da mitologia irlandesa, no referido capítulo, ainda que tenha uma vida curta: Cúchulainn. É muitas vezes tido como a encarnação de Lugh, deus do sol, da tempestade ou do céu, conforme a interpretação, e que também é o seu próprio pai. 
Lembra em alguns aspectos o Hércules grego e o herói persa Rostam, que também acidentalmente mata o filho. A sua fama passou fronteiras e chegou ao folclore escocês e manx (Ilha de Mann). 


(3) A esposa do deus do mar, Manannán Mac Lir (Manannám, Filho de Lir).


(4) A esposa do nosso herói Cúchulainn. 


(5) Yeats admitiu, um dia, ter criado este verso a partir do que leu sobre Caolte, sobrinho de Fionn Mac Cumhaill (líder dos Fianna, uma tribo de guerreiros semi-independente), mais concretamente na batalha de Gabhra - em que quase todos os seus companheiros foram mortos, o que fez «os deuses saírem da cidadela». 
O relato encontra-se escrito num capítulo denominado "Ciclo Feniano".  


(6) Trata-se de outro rei do Ulster, Fergus Mac Róigh (Fergus, Filho de Róigh).
Apesar do que o poeta escreve, conta-se que num esquema bastante ardiloso e demorado  Fergus vê o trono usurpado por Conchobar, seu enteado. Em resposta à traição, alia-se à sua maior inimiga, a rainha Medb, de Connacht, tornando-se seu amante. Juntos invadem o Ulster, mas sem sucesso. 


(7) Yeats, uma vez mais posteriormente à edição deste poema, admite que inventou aquele «que vendeu a casa e as terras e os arados» a partir do conto The Red Pony (O Pónei Vermelho), antologiado num livro de 1893 chamado "Contos Populares do Ocidente Irlandês".  











quarta-feira, 6 de junho de 2018

DANNY, MEU QUERIDO


Oh, Danny, meu querido, por ti as flautas¹ clamam;
de vale em vale, pelas encostas estão a ecoar. 
O verão terminou, e todas as flores murcham;
é hora, é hora de partir - por ti deverei esperar.

Mas volta quando ao prado regressar o verão,
ou quando o vale se cobrir por nevado manto;
estarei aqui, ao sol ou à sombra sem hesitação,
oh, Danny, Danny meu querido, quero-te tanto.

Se regressares quando todas as flores murcham,
e esteja eu morta, pois é certo que possa estar,
virás a descobrir o lugar onde me sepultam,
e ajoelhando uma Ave Maria irás murmurar. 

Escutar-te-ei, embora o teu passo seja delicado,
e todos os meus sonhos serão mel e cetim;
se o amor que me tens não for olvidado,
repousarei em paz até que voltes para mim.



Frederic E. Weatherly (1848 - 1929) ²







(Versão de Pedro Belo Clara a partir do original, onde se preservou o esquema de rima eleito pelo autor - não obstante as naturais adaptações feitas num esforço por mantê-lo). 





(Tratando-se de uma das mais populares e universais canções irlandesas de sempre, torna-se difícil eleger a melhor interpretação. Pela doçura das vozes, e porque a versão apresentada faz melhor sentido quando cantada por uma voz feminina, optámos pela versão das Celtic Woman. Desfrute: https://www.youtube.com/watch?v=DquA6KyHTos ).






(1) Do original "pipes". Embora se refira quase de certeza à gaita-de-foles, em inglês "bagpipe", a escolha de tal termo não deixa de conter uma certa subjectividade, já que um outro qualquer instrumento de sopro parecido a esse poderá igualmente ser designado do mesmo modo (repare: Bag + pipe = Flauta ou Gaita de saco, literalmente; e ainda Pan + Pipe = Flauta de Pan). Portanto, "pipe" refere-se a um tubo onde, soprando, o ar passa, com buracos que, pressionados pelos dedos, em determinada ordem, originam uma melodia. Assim, optou-se por "flautas", mesmo sabendo dos riscos desta escolha. Opções como "gaitas" ou mesmo "gaitas-de-foles", pela melodia que em português tais palavras exalam, pareceram-nos hipóteses capazes de trazer dissonâncias aos versos traduzidos. Poderíamos ainda optar por "gaiteiros", pois o primeiro verso do poema-canção refere, segundo algumas interpretações que até carecem de maior fundo de argumentação, um chamamento para a guerra. Nos tempos medievais, os ingleses anunciavam os seus recrutamentos desse modo, tocando gaitas-de-foles que se escutavam por quilómetros, embora este instrumento, tão raramente associado aos ingleses, se torne difícil de imaginar tocado por um deles. O mais provável seria um oficial local de baixo nível tocar o instrumento no início do processo de recrutamento, mas dada a sua ligação ao exército como poderia ser correcto chamá-lo de gaiteiro? Mais um motivo, pareceu-nos, para firmar a escolha de "flautas".



(2) Weatherly foi um famoso advogado inglês, nascido no Somerset, que escreveu livros infantis e realizou duradouras incursões pelo mundo da rádio, embora os maiores sucessos da sua vida tenham advindo da composição de canções, a grande maioria dentro do estilo popular, ou folk. Julga-se que seja o autor de cerca de mil e quinhentos temas, ainda que, esclareça-se, maioritariamente no que toca à parte cantada, na medida em que tinha o hábito de pegar em melodias já existentes e então escrever uma letra que considerasse adequada.
Na verdade, está nesse método a origem desta canção, tão popular entre os irlandeses. É muito provável que a esmagadora maioria destes se espante ao saber que, afinal, um tema tão intimamente irlandês tenha sido escrito por um advogado inglês, mas, como já se viu, Weatherly foi um profícuo letrista, tendo coleccionado ao longo da vida inúmeros sucessos que versavam sobre diversos assuntos. 
Naquele tempo, era usual um letrista vender as pautas da sua música a cantores amadores. Era, pelo menos, o melhor meio para entrar na indústria e conseguir a divulgação do seu trabalho. Tendo em conta que em regra não sabiam quem iria comprar as pautas, se homem ou mulher, convinha que a canção fosse o mais geral e abrangente possível, de modo a aumentar o seu público-alvo. Weatherly era deveras astuto nesse sentido, pelo que quase todas as suas canções cumpriram o mesmo método.
Mas tal levanta grandes problemas no que toca à interpretação deste tema em concreto. É importante referir que muitos estudos marcam o nascimento da melodia no início do séc. XVII. Terá, assim, surgido pelas mãos de um harpista irlandês cego, Rory O'Cahan, descendente de um poderoso clã. Um dia, nos primeiros anos de 1600, Rory assistiu ao confiscar da maioria das terras onde os seus antepassados haviam vivido. Revoltado, decidiu compor uma melodia plena de dor e comoção, de forma a dar vazão aos seus mais profundos sentimentos. Nascia assim o "O'Cahan's Lament" (O Lamento de O'Cahan), embora haja quem o considere um elogio fúnebre, composto em honra de um parente falecido. Há, contudo, uma lenda curiosa a respeito da primeira hipótese: numa noite em que estaria extremamente alcoolizado, Rory terá surpreendido um grupo de fadas que tocavam na sua harpa uma melodia belíssima, e o músico, quando recuperou do seu excesso etílico, apressou-se logo a registar as notas que havia escutado. Obviamente, afastar-se-á a lenda da verdade do que aconteceu, mas não deixa de ser uma hipótese plena de interesse lúdico - e que achámos por bem partilhar com os nossos leitores.
A dita melodia, que seria muito mais tarde conhecida por "Danny Boy", ressurgiu no século XIX pela harpa de um outro músico cego e itinerante, Denis O'Hampsey, que chegaria à magnífica idade de 112 anos (!). Ora, Denis, ficando cego muito novo, decidiu desenvolver o seu enorme talento para a música e, a dada altura, terá sido aluno de uma familiar de Rory, que lhe passou a melodia composta por esse também cego músico, assim como muitas outras do seu imenso repertório. Graças às suas viagens, Denis ajudaria a espalhar o tema pela Irlanda e não só, já que também o apresentou aos escoceses que o desejavam ouvir. A dada altura conhece Edward Bunting, um jovem colector de música tradicional irlandesa, mais tarde o autor de um livro lançado em três volumes que antologiava diversos temas populares, incluindo o nosso belo lamento.  
Os anos foram passando e o tema, cada vez mais famoso, tornou-se usual no repertório de vários músicos deambulantes, pois no que toca à arte popular a transmissão oral era um dos primeiros modos de preservar esse valiosíssimo património. Em 1851, na cidade de Limavady, em Londonderry, na actual Irlanda do Norte, junto ao mercado local um músico cego (outro, curiosamente), Jimmy McCurry, tocou um tema que despertaria a atenção de Jane Ross, que morava no outro lado da rua. Tendo escutado a melodia, admirado a sua cativante beleza e, depois, sabido-a estranha ao seu conhecimento vasto, contactou um seu amigo entusiasta de canções populares, Dr. George Petrie, que quatro anos depois a publicaria num livro da sua autoria, ainda sob a classificação de anónima. Não obstante, deve-se a Jane Ross o primeiro grande impulso para a universalização do tema, quase 250 anos depois da sua criação, e que posteriormente ficaria conhecido por "Londonderry Air", ou Canção de Londonderry - mais raramente, surgia creditada como Canção do Condado de Derry. Estranhamente, Jane Ross não achou importante saber quem era o músico que a tocava e onde a tinha aprendido, tampouco quem seria o ser verdadeiro autor. Apenas escutou, apreciou e, registando a melodia, a enviou a alguém que sabia ser apreciador do género. Contudo, é interessante saber que a área de Londonderry fez parte, entre os séculos 12 e 17, dos domínios do clã O'Cahan. De certa forma, parece que o tema não abandonou o seu lar de nascimento. 
É claro que, como é natural que aconteça nestes assuntos, a história não é certa nem todos os seus contornos merecem a aprovação da globalidade dos estudiosos. Apresentamos, por isso, apenas a versão mais usual do tema em questão, apesar dos diversos pontos que ao conto parecem ter sido acrescentados pelos descendentes dos intervenientes mais directos. Mas continuemos. 
Mais tarde, uma outra mulher, Margaret Weatherly, que emigrara para os Estados Unidos com o seu marido durante a febre do ouro, escutou um grupo de mineiros que cantava um tema que considerou de rara beleza. Curiosamente eram australianos, pois foi um músico desse país o primeiro a gravar o tema "Londonderry Air". Fascinada, registou a melodia e de pronto a enviou ao seu cunhado, o nosso já bem conhecido advogado-compositor Frederic. 
Mal recebeu a canção interessou-se logo por ela. Estávamos em 1912, e dois anos antes Frederic havia composto e lançado um tema chamado "Danny Boy", que resultou num completo fracasso. Ao ler a música, notou que a letra do seu "Danny Boy" encaixava quase na perfeição na melodia que lhe chegara da América, e não hesitou em trabalhá-lo no imediato. Um ano depois, em 1913, o tema seria lançado, não sem alguns dissabores: Graves, um outro compositor seu amigo, havia escrito dois temas para a mesma melodia, e não apreciou que Weatherly tenha tido a mesma ideia. Ademais, acusou-o de usurpar algumas das suas ideias na criação da nova letra, enquanto que Weatherly afirmava que as letras de Graves não se encaixavam no espírito da melodia. Lançou também os seus dois temas, mas nunca obtiveram o estrondoso sucesso do "Danny Boy" de Weatherly, o que levaria ao fim da amizade entre ambos. 
Logo no início o advogado inglês afirmou ter composto um tema dedicado aos nacionalistas e unionistas da Irlanda, e que era o seu sonho ver ambas as partes cantarem a sua canção, no esforço de ver arredadas as suas diferenças e na esperança de uma convivência comum e pacífica entre todos. Acrescentou, também, que o tema nada tinha de bélico, nem apelava a guerras ou revoltas, sequer inseria-se em contexto de derramamento de sangue. Ora, isto contrasta com a ideia que o primeiro verso nos dá, conforme antes falámos. Se as flautas não chamavam Danny para a guerra, por que tocavam sequer? Por que iriam chamar por ele, conforme o sujeito da canção refere? Não faz grande sentido, diga-se, mas de qualquer modo aceitemos as palavras do próprio autor.
É óbvio que por tais motivos o tema tornar-se-ia muito popular na Irlanda. Ainda hoje em dias os irlandeses do norte, desprovidos de hino, assumem a canção como sendo o seu tema nacional. Mas os oriundos da república independente também partilham desse sentimento, pelo que o sonho de Weatherly parece ter-se cumprido. 
Portanto, não sendo uma canção de partida para a guerra... o que será, então? Muitos vêem nela a despedida de um chefe de clã irlandês a seu filho, de... partida para a guerra. Certa vez, em concerto, a vocalista do famoso grupo The Seekers, Judith Durham, anunciou o tema como tendo sido composto por um pai que via o seu terceiro filho partir para a guerra, após a morte dos outros dois. Ora, se o próprio autor nega esta vertente do tema, importa afastar de vez tal cenário. Sobra, portanto, a hipótese de canção de amor. Outros ainda vêem uma partida para a América em plena Grande Fome na Irlanda, deixando uma mãe para trás, mas como poderão aqui as flautas se encaixar? Danny vai imigrar e as flautas chamam por ele? Além disso, observando melhor o texto nota-se que a última quadra refere um certo tipo de apego e proximidade que não parece usual no amor filial. A ideia de regressar e ver morto o ente amado, e este admitir que espera tranquilo pelo dia em que o outro virá para o seu lado parece mais adequado a um amor romântico. Será, assim, uma canção de amor, embora a partida de Danny, suas razões e destino, permaneça um mistério. 
Diga-se que Weatherly tinha, de facto, um filho com o mesmo nome, e que viria a falecer em combate durante a primeira Grande Guerra. Em três meses, o advogado inglês perdia o pai e o filho, mas lembremo-nos que o tema foi publicado em 1913, pelo que qualquer relação com tais acontecimentos só poderia surgir de alguma capacidade mediúnica de Weatherly, dom esse que sabemos hoje que não detinha. Além disso, alguns anos depois, numa nova publicação do tema o autor esclareceu, em breve nota, que "Danny Boy" deveria ser cantado por uma voz feminina, e se fosse o cantor um homem então deveria alterar o título e algumas passagens para "Eily Dear" (Querida Eily). Como a tradução literal seria algo como "Danny, meu rapaz", mas que ganha outro nome e um outro qualificativo na mudança de intérprete, no caso "Querida", decidimos arriscar e escolher esse mesmo adjectivo na nossa versão. Convenhamos: quão comum será em português a amada dirigir-se ao ente amado como "meu rapaz"? É de facto um tratamento que sugere uma pessoa mais velha, como pai ou mãe, mas aqui voltaríamos à contradição antes referida. Como de novo se constata, o carácter geral e algo ambíguo da letra desta canção permite várias interpretações e, mais importante ainda, deixa no ar diversas dúvidas quanto ao seu real significado, se algum haverá. Mas foi essa a estratégia do grande sucesso de Weatherly - permitir que qualquer um pudesse cantar os seus temas.
Terminaremos dizendo que ao longo dos anos diversos cantores interpretaram esta canção, e alguns tão distintos como Mario Lanza ou Elvis Presley, contribuindo também para a sua difusão quase universal. Nesse processo, certos reparos foram sendo feitos, certas alterações à letra original, e foram essas tão vincadas que muitos atribuem a Weatherly versões que ele próprio não compôs. Pelo que a nossa pesquisa permitiu descobrir, usámos a original de 1913, como convém. As outras propõem trocas pouco significativas, embora muitas vezes cantadas, estando a principal no segundo e terceiro versos da última quadra: a troca de "sonhos" por "campa" e o "amor olvidado" por "amor confessado". Em todo o caso, consideramos que deverá sempre prevalecer a versão original do autor. Mesmo que a mudança da mesma para o português tenha aproximado o texto mais do molde de poema do que de canção, todas as intenções originais que nele se descobriram foram obviamente mantidas - incluindo a forte inclinação para o género canção de amor.









Calypso's Island, Departure of Ulysses - 
Samuel Palmer (1805 - 1881)




segunda-feira, 21 de maio de 2018

DE NOVO UMA NAÇÃO


Quando no sangue tinha dos jovens o ardor,
li sobre esses livres homens ancestrais
que pela Grécia e Roma lutaram sem temor,
trezentos homens e outros três, não mais¹;
então, rezei para que ainda pudesse ver
dos nossos grilhões a libertação,
e a Irlanda, há muito uma província, ser
de novo uma nação! ²

Desde esse tempo, por árduas provações
tal esperança brilhou numa luz distante;
nem pôde o amor, com seus fulgentes clarões,
ofuscar a sóbria cintilação de estrela brilhante;
parecia pairar sobre minha cabeça, observando,
na praça, no campo, no templo de oração;
a sua angelical voz em torno do leito cantando:
de novo uma nação!

Sussurrou, também, que a arca da liberdade
e um serviço nobre e sagrado
seria por sentimentos de obscuridade
e por vãs ou baixas paixões profanado;
mas a mão direita de Deus a Liberdade irá prover,
e um numeroso séquito de divina acção;
os homens honrados devem desta terra fazer
de novo uma nação!

Enquanto ia em homem me tornando,
ajoelhei-me diante de tal chamamento;
e de planos egoístas o espírito fui expurgando,
sem deixar as cruéis paixões ao esquecimento;
assim, espero um dia o meu auxílio dar
- oh, pode tal esperança ser em vão? -, 
quando o meu querido país enfim se tornar
de novo uma nação!




Thomas Osborne Davis (1814 - 1845) ³







(Versão de Pedro Belo Clara a partir da composição original).






(A partir deste poema musicaram-se várias versões, fruto da criatividade de diversos artistas. Para si, estimado leitor, seleccionámos a do popular grupo The Dubliners. Desfrute: https://www.youtube.com/watch?v=88-qgHh31bw ).















(1) Estes «trezentos homens e outros três» são, em primeiro lugar, uma referência aos trezentos espartanos que fizeram frente ao imenso exército persa em 480 a.C., durante a batalha de Termópilas, e os restantes três, ligados a Roma, serão provavelmente fruto duma evocação de Públio Horácio Cocles e de mais dois companheiros que, evitando a invasão da cidade por parte dos etruscos, os defrontaram em plena ponte Sublício, ou Aventino. Eventualmente, pois trata-se de uma lenda, a ponte acabaria demolida - apenas uma das diversas ocasiões em que assim se encontrou. 
É óbvio que a bravura de tais feitos inspirou o autor a transpor o seu exemplo para a realidade irlandesa de então. Em 1842, por exemplo, saiu um livro denominado "Poemas da Antiga Roma", da autoria de Thomas B. Macaulay, onde se conta um que relata a lenda de Horácio. É muito provável que o nosso poeta tenha lido tal obra, tomando assim conhecimento do sucedido pela primeira vez. 



(2) Também nos parece clara a indicação do autor ao referir, de modo constante, o «de novo uma nação», aludindo, portanto, àquilo que a Irlanda era antes da chegada e consequente domínio britânico, governo esse que durou mais de setecentos anos. Recorde-se que a ilha permaneceu livre da influência romana, prosperando sobre as regras tribais e modos de vivência dos celtas, até à sua evangelização por São Patrício. Anos depois, tornou-se num autêntico santuário para diversos monges em busca de silêncio e reclusão. 


(3) Apesar da sua breve vida (viria a falecer com apenas trinta anos, vítima de escarlatina), Davis viria a compor um dos mais célebres hinos que existem em favor da independência da Irlanda. 
Nascido em Mallow, no Condado de Cork, e privado de uma figura paterna desde um mês de idade, sentiu muito cedo em si o apelo independentista. Apesar de ter um pai galês, a mãe descendia de uma nobre família gaélica. O papel que terá essa herança desempenhado no jovem Davis não poderemos afirmar com clareza. A verdade é que este jovem advogado, com grande talento para a poesia, mas principalmente para reunir pessoas em torno da música, das palavras e daquilo que através de ambas se difundia, participou na fundação do movimento "Young Irland", que aliado a um famoso jornal da época tornou-se, em meados do século XIX, uma das principais vozes a exortar à libertação do jugo inglês, dando assim sólida forma aos primeiros passos do nacionalismo irlandês. 
De facto, é isso que este poema-canção faz. Não se estranha, portanto, a sua rápida popularidade desde a edição, em 1844, e mais tarde a elevação quase mítica que o tema experienciou, na longa batalha em favor da independência e, posteriormente, da reunificação do território - ainda não conseguida, acrescente-se. É, por isso, o exemplo perfeito da "Irish Rebel Music", que corresponde sem grande desvio às nossas bem conhecidas canções de intervenção. É curioso constatar, contudo, que ao longo da sua reflexão o poeta instiga os homens honrados e os homens com ligações religiosas a tomarem partido no movimento («numeroso séquito de divina acção»), também certo do seu poder no seio da sociedade irlandesa. É, pois, bastante subtil a sua forma de apelar aos corações de cada um, lançando habilmente as achas para o incêndio que gostaria de ver deflagrar. 
Refira-se que a canção surge muito antes da famosa Revolta da Páscoa. Os únicos movimentos do género com relativo impacto haviam surgido ainda antes do nascimento do autor, em 1798 e 1803. Quem sabe o papel, graças à sua notoriedade, que teve em incitar as futuras rebeliões?
Apesar da originalidade dos versos, diga-se que a melodia escolhida sofreu algumas influências de Mozart. A versão portuguesa que se propõe foi leal ao esquema de rima original, apenas se cortou, preservando assim a sua identidade de poema, aquele que seria o refrão desta canção, e que mais não é do que a repetição do último verso de cada oitava, entremeado com a referência da Irlanda ser há muito uma província. 
Davis não veria o seu «querido país» independente, mas terá sido um dos principais motivadores de tamanha conquista. Esteja onde estiver, decerto estará com um sorriso no rosto.  












terça-feira, 24 de abril de 2018

Três poemas de amor da tradição oral galesa


I. A raiz e o ramo


Não vejo razão para assim mostrares
os olhos zangados.
Será porque há outras que olham meus olhos
e gostam de mim?

Devias saber que o vento ao soprar
os ramos agita
mas seja quem for, só com enxada
arranca a raiz.



II. Os passos leves


Não há outra estrela como a minha amada,
flor das flores da minha aldeia.
Sob os seus passos não se move a erva,
nem a rocha treme quando a ave pousa.



III. Jamais o sol


Belo é o sol quando sorri
em plena glória.
Bela é a lua e o seu sorriso
na noite serena.
Mais belo, porém, o riso suave
do meu amor.

Bela é a lua vogando nas ondas.
Belas as estrelas no brilho da noite.
Mas nunca as estrelas, jamais a lua,
terão a beleza, um pouco sequer,
da cor e da luz que moram nos olhos
do meu amor.




Anónimos (Séc. XVII)






(Tradução de José Domingos Morais in "O Imenso Adeus - Poemas Celtas do Amor", Assírio & Alvim, 2004)











(Fleurs de Cerise, de Émile Vernon (1872 - 1919))





domingo, 1 de abril de 2018

PÁSCOA DE 1916 (excerto) (*)


Um sacrifício demasiado longo
Pode em pedra o coração tornar.
Oh, quando será suficiente?
Isso aos Céus compete, a nós nos cabe
Murmurar nome após nome,
Como mãe que seu filho chama
Quando enfim o sono desce
Sobre as pernas que correram loucamente.
Que é isto senão o anoitecer?
Não, não, não é a noite mas a morte;
Foi então inútil a morte?
Que a Inglaterra sua fé guarde
Apesar de quanto se fez e disse.

O sonho deles conhecemos; basta-nos
Saber que sonharam e estão mortos;
E que importa se por excessivo amor
Enlouqueceram até à morte?
Em verso aqui o escrevo - 
MacDonagh e MacBride,
Connolly e Pearse
Agora e seja onde for,
Algures onde impere o verde,
Mudaram, mudaram completamente:
Uma terrível beleza nasceu.




W. B. Yeats (1865 - 1939)






(Tradução de José Agostinho Baptista in "W. B. Yeats - Uma Antologia", Assírio & Alvim, 3ª Edição: Abril de 2010)






(*) Este longo poema de Yeats faz referência à célebre Revolta da Páscoa, ocorrida entre 24 e 30 de abril de 1916, e que se afirmaria como o mais importante movimento independentista ocorrido na Irlanda desde a rebelião de 1798. 
Aproveitando o comprometimento inglês com o maior conflito então vigente, a Iª Guerra Mundial, um proeminente grupo de republicanos, a Irmandade Republicana Irlandesa, reivindicou a independência do território e, em acto final, declarou a instauração da República. O professor e advogado Patrick Pearse comandou os Voluntários Irlandeses e uniu-os ao Exército Civil liderado por James Connolly, o que, em conjunto com outros grupos menores, totalizou uma força de pouco mais de 1200 homens contra 16000 tropas inglesas e 1000 polícias armados.
O conflito durou seis dias e travou-se essencialmente na capital, Dublin. Apesar de algumas escaramuças pouco significantes noutros locais do país, a cidade principal viria a ficar parcialmente destruída no final da contenda. Lamentavelmente, e apesar de consideráveis baixas terem sido infligidas na facção colonizadora, dada a diferença de forças e recursos, as baixas civis foram as mais significativas, muitas delas ocorridas em situações de fogo cruzado ou sob o peso da artilharia inglesa. Do total de vítimas contabilizado, 54% eram civis totalmente desarmados.
A revolta terminou com a rendição incondicional das forças rebeldes, o que dias depois levaria à execução de todos os seus líderes, no poema lembrados com reverência pelo autor. Mas, como Yeats escreveu, e bem, mais um precedente havia sido aberto e, daí, «Uma terrível beleza nasceu». Afinal, a tão desejada independência estaria a uns meros cinco anos de distância.







(Birth of The Irish Republic, de Walter Paget (1865 - 1935))





sexta-feira, 23 de março de 2018

O CONDENADO DE CLONMEL (1)


Quão madrasta a minha sorte,
e vãos os meus lamentos!
A firme corda do destino lança
sobre o jovem pescoço seus tormentos.
Já toda a força me desertou; 
o rosto encova-se e perde expressão,
enquanto definho acorrentado
em Clonmala, na prisão.

Nunca nenhum rapaz da aldeia
foi até hoje mais bondoso:
se jogasse² com uma criança
o meu jogo não seria rigoroso.
Dançaria sem qualquer fadiga
de manhã até ao anoitecer,
e a bola que à baliza lançasse
os relâmpagos do Céu iria conhecer.

Aos pés da minha cama, apodrecendo,
o meu bastão de jogo repoisa;
pelos rapazes da aldeia voa
a minha bola, como simples coisa;
o meu cavalo abandonado
pode o hábito do trabalho perder,
enquanto na prisão de Clonmala
em correntes me vejo enfraquecer.

No Domingo próximo, o patrono
estará em casa como guardião;
e os jovens e sadios hurlers
o campo de jogo varrerão. 
Com a dança de doce raparigas
o anoitecer consagrar-se-á,
enquanto este coração, outrora alegre,
em Clonmala esfriará.




(Anónimo - provavelmente séc. XVIII) ³







(Versão de Pedro Belo Clara a partir da versão inglesa, desde o original em gaélico, de J.J. Callanan (Cork, 1795 - Lisboa, 1829), compilado em "Irish Verse, An Anthology by Bob Blaisdell" - Dover Publications, 2002)





(Caso o leitor pretenda escutar a versão musicada do tema, propõe-se a interpretação de Liam Clancy, nome maior do folk irlandês: https://www.youtube.com/watch?v=sQp4ugV7rtg )







(1) Clonmel, em gaélico Cluain Meala, ou "o prado do mel", é a capital do condado de Tipperary, no sul da República da Irlanda. 
A cidade ficou famosa por resistir estoicamente, no século XVII, ao cerco levantado por Oliver Cromwell, aquando de uma invasão inglesa do território para pôr cobro a diversos focos revoltosos. Apesar dos esforços, a capitulação foi inevitável - mas a guarnição sitiada conseguiu escapar a meio da noite.
O outro termo que o tradutor decidiu utilizar, "Clonmala", é somente uma diferente anglicização do nome da cidade em gaélico. 


(2) O jogo em causa, e ao qual se fazem diversas referências ao longo do poema-canção, é o Hurling, um jogo tradicional irlandês de origem celta. 
Semelhante ao hóquei de campo, julga-se que seja jogado há cerca de três mil anos, não obstante as naturais alterações de regras. É um dos desportos mais populares na Irlanda, e tempos houve em que era disputado com tremenda pompa e zelo entre paróquias, províncias e até condados. Letrado ou camponês, todos tinham a ele um livre acesso.
Actualmente, o jogo comporta quinze jogadores de campo por equipa, munidos de um capacete, e as balizas têm postes superiores, como no rugby, e uma rede abaixo destes, como no futebol. A pontuação difere consoante por onde a bola passe. Os hurlers citados no poema são obviamente os praticantes deste desporto que incorpora os "Jogos Gaélicos", disputados anualmente.
Pode parecer natural situar o condenado que nos conta os seus lamentos num espaço temporal em que deste jogo se elaboravam grandes festejos, bem como ver nele um regular praticante deste desporto. Será isso totalmente verdade? Em breve veremos. Por ora, repare-se como admite que, por ser bondoso e gentil, não levava o jogo a sério quando jogava contra uma criança, como lamenta que o seu bastão esteja a apodrecer e a sua bola saltite por entre as mãos dos jovens da sua aldeia. Um pouco mais à frente, existem referências a todo o clima de festa que circundava a realização destas partidas: o patrono (patron, em inglês), que se presume ser um santo, a zelar pela equipa, os rapazes a varrerem o campo (ideia que o uso do bastão no jogo sugere), as danças de belas raparigas a encerrar a noite. O condenado, sozinho, apenas poderá lamentar a sua "sorte madrasta".


(3) Este poema, que posteriormente seria musicado, surge antologiado pela primeira vez em 1845, num livro organizado por Charles Duffy. Desde logo se creditou como anónimo, pertença da tradição oral, devendo-se, como disso já se fez nota, a tradução ao poeta e professor J.J. Callanan, que curiosamente viria a falecer em Lisboa. 
A sua ligação ao desporto denominado Hurling é deveras notória. Apesar da sua grande popularidade na Irlanda, sabe-se que só a partir de 1870 é que se deu a ressurreição do jogo. Em décadas imediatamente anteriores a essa, só em pequenas partes da Irlanda é que se continuava a sua prática, pelo que será seguro afirmar que o autor do poema, ou o seu protagonista, caso se tratem de indivíduos diferentes, terá residido num desses locais. Mesmo havendo a referência à cidade de Clonmel, não significa que o jovem condenado fosse daí originário. 
O poema tem a sua antiguidade, tanto mais que foi escrito em gaélico. Não será um critério exclusivo, mas ajudará a atestar a sua idade. No entanto, ainda sobeja a questão: que crime tão hediondo terá cometido este jovem que adorava dançar e jogar Hurling para ter o destino da forca? Se seguirmos um critério histórico, deparamo-nos com a rebelião de 1848, mas aí é sabido que os conspiradores, apesar de capturados, julgados e condenados à forca, foram posteriormente perdoados de tal fim. Além disso, a data do livro de Duffy, sendo anterior, não permite aceitar tal ideia. Recuando ainda mais, temos a insurreição de Emmet, um nacionalista irlandês que por conta do seu crime faleceu na tenra idade de vinte e cinco anos, em 1803. Contudo, ainda não valida a data que o tradutor lhe colocou. Sobra, portanto, a malograda revolta de 1798, mas sem qualquer suporte válido torna-se uma ideia tão bela quanto qualquer outra.
Apenas se sabe que em Clonmel esteve preso este jovem que parecia ter ainda tanto para viver. O seu amado desporto foi abandonado, o seu cavalo de trabalho deixado vaguear pela vizinhança, as belas raparigas continuaram a dançar sem ele. Seja qual tenha sido o crime, ainda em vida sofreu as duras consequências do seu acto. Justamente? Ora, esta parece ser a questão central. Baseando-se em dois versos que parecem atestar a sua inocência («Nunca nenhum rapaz da aldeia / foi até hoje mais bondoso»), certos estudiosos afirmam que o pobre jovem terá sido condenado sem causa válida, daí o lamento. No século XVIII, conforme datou o poema o seu tradutor, existiu de facto um grupo secreto de revoltosos irlandeses denominado "whiteboys", ou "rapazes brancos", que essencialmente empreendia acções violentas contra nobres ou proprietários de grandes terras em benefícios dos agricultores ou do trabalhador mais humilde que aí operasse. A situação descontrolou-se ao ponto de ser necessária uma intervenção militar para terminar com o movimento. Segundo essa óptica, este pobre rapaz foi erroneamente identificado como um membro do grupo rebelde, sofrendo então o seu trágico fim.
Pela grande simpatia que o povo irlandês parece nutrir para com poemas e canções que retratem prisioneiros, nomeadamente revoltosos contra o domínio britânico, este tema figura entre os mais célebres do género no cancioneiro tradicional do país.






(The Convict, por Marcus Stone (1840 - 1921))



sexta-feira, 9 de março de 2018

A Rosa de Tralee


A pálida lua erguia-se sobre o verde monte,
o sol tombava por detrás do azul mar; assim os vi,
enquanto deambulava com o meu amor até à fonte
cristalina que nasce no belo vale de Tralee¹.

        Era encantadora e bela como a rosa do verão,
        ainda que não fosse só a beleza a me cativar;
        foi a verdade daqueles olhos, a cada amanhecer,
        que Mary, a Rosa de Tralee, me fez amar.

As frias sombras do anoitecer o seu manto abriam,
e Mary, sorrindo, escutava-me com atenção;
pelo vale, os lívidos raios lunares se vertiam,
quando da Rosa de Tralee ganhei o coração.

        Embora encantadora e bela como rosa de verão,
        não foi só a sua beleza a me cativar;
        foi a verdade daqueles olhos, a cada amanhecer,
        que Mary, a Rosa de Tralee, me fez amar.

Na Índia distante, nas agitações da guerra que farta,
a sua voz foi um alívio, todo o conforto que senti;
mas a gélida mão da morte agora nos aparta.
Estou só nesta noite, sem a minha Rosa de Tralee.

        Era encantadora e bela como a rosa do verão,
        ainda que não fosse só a beleza a me cativar;
        foi a verdade daqueles olhos, a cada amanhecer,
        que Mary, a Rosa de Tralee, me fez amar.





William Pembroke Mulchinok (1820 - 1864) ²





(Versão adaptada de Pedro Belo Clara a partir do original, com a preservação do esquema de rima escolhido pelo autor.)




(De entre as variadíssimas versões deste tema, sugere-se a de John McDermott, certamente uma das mais bem conseguidas: https://www.youtube.com/watch?v=uj9h1Vp5x3c . Desfrute.)






(1) Tralee, ou Tráigh Lí, significando "Vertente ou Margem do Lee" (um rio), é a maior cidade do condado de Kerry, na região sudoeste da Irlanda, sendo igualmente a sua capital. 
Além de ser o local de confluência de vários pequenos rios, de Tralee partia, em tempos muito remotos, uma estrada que atravessava as montanhas a sul do lugar, e cujos vestígios ainda são identificáveis. Por essa rota, é possível chegar a um conjunto de rochas ordenados com um rochedo no topo chamado "O túmulo de Scotia", pois julga-se que uma filha de um faraó egípcio tenha aí sido enterrada, conferindo à localidade uma importância histórica tremenda. (Scotia ou Scota, que significa "rebento de flor", é considerada, para efeitos mitológicos, a mãe dos irlandeses, sendo mais tarde a partir daí que a Escócia receberia o seu nome). 
A cidade foi fundada no século treze por anglo-normandos, tendo sido incendiada por ordem de Isabel I de Inglaterra, em 1580, como retribuição pelo papel dos locais numa rebelião contra a coroa inglesa. 



(2) Apesar deste popular tema do cancioneiro tradicional irlandês ser por vezes atribuído a  um outro autor, parece existirem cada vez mais evidências que fazem de Mulchinok o seu criador por completo direito. Este, autor de diversos poemas, e que em diversos meios nem é tido por poeta de renome, nasceu em Tralee, no seio de uma abastada família protestante.
A canção-poema que hoje se apresenta terá surgido numa fase inicial da sua vida de adulto, pois professa a profunda paixão que nutriu por uma rapariga católica de origens muito humildes, Mary O'Connor. Natural da mesma região, era filha de um sapateiro e de uma empregada doméstica. Aos dezassete anos entra na casa dos Mulchinok como ajudante de cozinha, mas rapidamente assume o papel de ama das sobrinhas do poeta. É precisamente numa das visitas que este realiza às suas sobrinhas que encontra pela primeira vez Mary e por ela se apaixona perdidamente.
A família, como seria de esperar, não recebeu bem a notícia, tendo ficado especialmente alarmada quando soube que William escrevia e enviava poemas para Mary. Ademais, na mesma altura descobre que o jovem poeta contribuía literariamente para o jornal "The Nation", uma publicação subversiva que aclamava a revolta armada de todos os irlandeses contra a coroa britânica. Ora, a família, sendo protestante, era totalmente leal à soberania inglesa.
Em 1843, William liderou um grupo de homens modestamente armados até ao lugar onde se daria uma discussão eleitoral. Uma escaramuça entre grupos rivais tem início e um homem acaba por morrer. Fatidicamente, as autoridades responsabilizam William pelo acto. Encontrava-se já noivo de Mary, mas com um mandato de captura por homicídio em seu nome a circular, rapidamente compreende que deve deixar o país. Assim, embarca para a Índia, onde se torna correspondente de guerra.
É durante este período da sua vida, pelas cartas que então ia escrevendo, que se verifica o aparecimento do carinhoso nome que deu à sua amada, a "Rosa de Tralee". Presente em muitas das suas linhas, faz-nos crer, pelo modo corrente do seu uso, que o apelido terá surgido ainda antes da sua partida para o oriente.
Graças ao notável trabalho de cobertura no território, as autoridades militares decidem mais tarde intervir a seu favor no processo, ilibando-o de todas as acusações. Assim, na primavera de 1849 regressa finalmente à sua terra natal. Infelizmente, e este é sem dúvida o aspecto mais implacável e trágico da sua existência relativamente curta, o dia em que chega a Tralee é precisamente o mesmo do funeral da sua bem amada. 
Embora devastado, apressa-se a casar com uma mulher que conhecia há largos anos e a partir com ela para os Estados Unidos. Torna-se pai de dois filhos, publica (em 1851) uma colecção dos seus poemas e em 1855 decide regressar à Irlanda, deixando a mulher e dois filhos para trás. 
Ainda oprimido pelos trágicos acontecimentos que se abateram sobre ele e Mary, além do próprio falhanço do seu casamento, entrega-se tristemente a uma vida de alcoólatra, decisão essa que contribuiria fortemente para o seu rápido fim de vida.
Resta acrescentar que a melodia feita para este poema é da autoria do violinista inglês Charles William Glover, falecido um ano antes de William. O tema adquiriu renome internacional quando John McCormack o cantou em "Song O' My Heart", de 1930. Desde 1959 realiza-se em Tralee um concurso de beleza, dos mais importantes a nível nacional, que anualmente elege a nova "rosa de Tralee".





(Mary O'Connor e William P. Mulchinok, ambos segurando uma rosa
na estátua erguida em sua memória)