terça-feira, 11 de setembro de 2018

O LAMENTO DAS RAPARIGAS DE BANTRY (1)


Oh, quem os campos irá lavrar ou o milho venderá?
Oh, quem as ovelhas irá limpar e boa tosquia lhes dará?
O feixe que está na eira por debulhar irá permanecer,
pois Johnny o corrupto Rei de Espanha foi combater.

As raparigas da verde vila² em suas tristezas partirão
e o flautista e seus foles para casa soprar o fogo irão,
pois Johnny, o gentil Johnny, atravessa o grande mar
com outros patriotas³ para o Rei de Espanha enfrentar.

Os rapazes, pela feira de Moneyhore⁴, a sua falta irão sentir,
lamentando estar o bravo capitão em lugar por descobrir;
a polícia⁵, contra a sua fibra e vontade, deve agora esperar,
pois o valente rapaz que os empregou um Rei foi desancar.

Não te veremos nas festas⁶ e jogos de hurling, tua adoração,
até que voltes para junto de nós, tesoiro do meu coração⁷!
Nem vexarás os nobres⁸ que revelam sobranceria tamanha,
pois não temos negros olhos como os há em Espanha.

Se o destino cruel o regresso do nosso Johnny não aceitar,
nós, as raparigas de Bantry, tal grande perda iremos chorar.
Aceitando a triste sorte, morreremos em luto e dor lancinante
- o Johnny morreu pelo brio da Irlanda na Espanha distante.




Anónimo (prov. séc. XIX) ⁹







(Versão de Pedro Belo Clara a partir do texto impresso num artigo da Dublin University Magazine, em dezembro de 1863).






(Para acompanhar a sua leitura, ou simplesmente apreciar após findá-la, propomos a versão de Joanie Madden - dado que, pelas óbvias razões, o tema ganha um melhor sentido quando interpretado por uma voz feminina. Contudo, a interpretação de Tommy Fleming também merece sinceros louvores. Desfrute, caro leitor:  https://www.youtube.com/watch?v=MN-V4OL3axk ).








(1) A Bantry mais famosa é uma cidade do condado de Cork, conhecida pela sua baía. No entanto, um estudo mais cuidado concluirá que a Bantry do texto hoje apresentado é um baronato na região de Wexford, República da Irlanda. Embora actualmente tais divisões já não existam, à luz da época é seguro aceitar essa referência - além doutros indicativos que, por se situarem na mesma região, excluem logo a hipótese da outra cidade mais afamada. 


(2) No texto que serviu de guia a esta versão em português surge a palavra "bownoge" que, definitivamente, nem se encontra nos dicionários ingleses. Na publicação em causa é possível ler uma nota que refere o seguinte: Bown: Quintal fechado ou quadra relvada; Bownoge: Vila verde. Ou seja, não refere um lugar em concreto, apenas dá referência a uma "verde vila". 
De facto, nas proximidades de Wexford existe uma localidade com tal nome, mas importa ressalvar que no texto em inglês a palavra surge em minúsculas, o que inviabiliza a hipótese de se tratar do nome de uma localidade - daí o termo sugerido na nossa tradução.


(3) No original encontra-se escrito "pathriarchs", que se traduzirá em "patriarcas", mas logo o editor da revista se apressou a deixar uma nota elucidando tratar-se de um erro. 
Admitindo, ainda que de modo algo intuitivo, os parcos estudos os admiradores do bravo Johnny, estes terão assim querido dizer "patriots", ou seja, "patriotas", conforme se traduz. Lemos que alguns intérpretes da história desta bonita canção-poema defendem que patriarcas estará correcto, pois significa veteranos, mas parecendo Johnny, conforme descrito, tão jovem, a hipótese perde bastante força (note-se que o verso indica «com outros», logo inclui Johnny no grupo). Obviamente, seguimos o preceito indicado pela revista irlandesa, a mais antiga fonte que pudemos descobrir.


(4) Moneyhore é uma vila situada entre Enniscorthy e Castleboro, no condado de Wexford, célebre pelas suas feiras, especialmente nas eras medievais. Em algumas versões surge "Moneymoore".
Neste momento do texto são os rapazes, provavelmente um grupo de soldados seus amigos, que lamentam não saber onde o «bravo capitão» de momento se encontra. É muito provável que este Johnny, originário do baronato de Bantry, fosse visita assídua da dita feira.


(5) Uma tradução algo complexa que deriva de um jogo de palavras. No original surge "peelers", que num primeiro instante se traduzirá por "descascadores", isto é, aqueles que têm a profissão ou tarefa de descascar ou debulhar. Lendo com mais atenção, nota-se que a referência não é agrícola. 
De modo popular, "peelers" era um nome na Irlanda dado à polícia, e surge escrito pela primeira vez em 1816, daí a tradução que se apresenta. Pode fazer referência aos actos violentos dos seus membros, isto é, a polícia como sendo aquela que "descasca" em quem ousar um acto de rebeldia, mas também é provável que o nome tenha surgido através do grupo de intervenção pela manutenção da paz no território criado por Sir Robert Peel, primeiro-ministro inglês no reinado da Rainha Vitória, um em 1814 outro em 1822. Os "peelers" seriam, portanto, os "homens de Peel" (algumas datas dadas na adenda número 9 demonstrarão como esta teoria tem os seus problemas). Quem escreveu o texto habilmente escolheu tal termo para o jogar, no verso seguinte, com o acto que atribuiu a Johnny: "now peels the King o' Spain" - "agora descasca o / no Rei de Espanha" (ele que antes fugia aos "descascadores"). 
Naqueles tempos, acrescente-se, acontecimentos sociais como as feiras eram o palco preferido para rixas de todo o tipo, nomeadamente as que começavam como insurreição contra o domínio inglês no território. Já que é Johnny que, ironicamente, justifica o emprego a esses "peelers" que devem, agora, aguardar o seu regresso, talvez ele tenha sido um célebre insubmisso no seu tempo. 


(6) No original "wakes". Apesar de num sentido mais directo traduzir-se por "vigílias", refere-se às festas populares realizadas em pequenas vilas e aldeias em honra dos seus santos padroeiros. Ou seja, um momento social, na época, de grande importância. Devido à extensão do verso traduzido, lamentavelmente teve-se de omitir no texto o elucidativo adjectivo "religiosa".


(7) No original impresso surge em gaélico «asthore, gra-gral-machree», uma referência a um chavão empregue em diversas canções românticas e que se traduzirá literalmente por "pequeno e jovem tesoiro do meu coração". Dada a extensão do verso, e sob pena de arruinar toda a estrutura da versão apresentada, houve que proceder a uma adaptação da lírica expressão em causa.


(8) A palavra original é "buckeens", que é sinónima de "gentry", ou seja, especifica um tipo de nobreza, no caso a pequena ou baixa nobreza. Não será, portanto, uma referência aos nobres de nascimento, mas àqueles que na estrutura social estavam imediatamente abaixo, de estatuto adquirido graças a um grande sucesso financeiro ou, em último caso, a avultadas herança. Seja como for, o Johnny tinha a reputação de importunar representantes desta classe.


(9) No universo popular não é tarefa fácil descobrir com extrema precisão e segurança o autor de uma determinada canção ou poema. Não só os mais antigos foram chegando aos tempos modernos graças ao poder da tradição oral, o que facilmente levava a uma captação errónea das palavras (neste caso em particular, por exemplo, logo no primeiro verso, existem versões com "sell the corn" e "sow the corn", que será a diferença entre "vender" e "semear"), como certos autores tinham o hábito de pegar em velhas canções, adaptá-las a seu gosto e, muitas vezes, declararem-se eles os seus criadores.
É um pouco o que se passa com este tema. Melodia e letra nasceram em ocasiões distintas, sendo que as palavras foram posteriormente usadas para preencher uma antiga canção irlandesa. Sobre essa, notemos o que William "Colm" O'Lochlainn (1892 - 1972) escreveu no seu livro "Irish Street Ballads", de 1939, citando George Petrie (1790 - 1866): «colectada no condado de Londonderry [Irlanda do Norte] no verão de 1837, é muito provável que seja um tema com origem no Ulster. Foi cantada para uma balada de camponês anglo-irlandesa». Acrescenta depois umas linhas que Petrie conseguiu preservar, e embora estas refiram um Johnny em nada se igualam aos versos deste texto. 
Ao que apurámos, algumas vozes indicam que os versos são adaptados de "The Witham Miller", mas uma grande certeza em tal assumpção não nos assiste, já que o tema alude historicamente a um moleiro que foi enforcado como pagamento pelos seus crimes (homicídio, provavelmente).  Porque uma das variações deste tema foi usada por Patrick Kavanagh (1904 - 1967) em "Ragland Road", muitos associam o poema a este autor, mas tal também não será correcto. Mesmo que o tenha incluído no seu livro de crónicas "The Banks of the Boro", lembremo-nos que o texto já havia sido editado, pelo menos, em 1863. 
Mais tarde surge num livro de Alfred P. Graves (1846 - 1931), o "Irish Songs Of Wit and Humour", de 1880, talvez a primeira vez que surge em livro, mas sem qualquer referência, uma vez mais, à sua origem ou onde Graves a colectou. Outro autor, Sparling, sete anos depois não a identifica numa obra sua de antologia, fazendo-o somente na segunda edição da obra, em 1888. Contudo, Graves não poderá ser o seu autor, uma vez que o texto, como já demos prova, surge numa revista dezassete anos antes do seu livro de canções. Ademais, à medida que estes iam publicando a canção nas suas antologias iam tomando a liberdade de lhe conceder pequenos acertos, o que actualmente só causa uma enorme confusão. O que podemos afirmar é que a versão impressa mais antiga que encontrámos serviu de base ao trabalho de tradução por assim a considerarmos original, ou pelo menos mais perto dessa forma. Encontra-se presente na já referida revista irlandesa, mas sem que haja qualquer referência à sua origem - pelo que considerámos sensato atribuir a autoria a uma figura anónima. Como afirmámos no início da nota, é um dúbio terreno esta caminhada de investigação pelas origens de temas populares tão antigos. 
Em todo o caso, sabemos que este Johnny, louvado pelas suas capacidades e personalidade, partiu para uma guerra em Espanha. E que relação poderá haver entre o país ibérico e a Irlanda? Naturalmente, para se encontrar sentido é necessário acrescentar mais um país à lista: a Inglaterra. Posto isto, é fortemente provável que o texto tenha surgido durante a Guerra Peninsular (1807 - 1814), onde vários regimentos ingleses, que incluíam irlandeses, combateram as forças de Napoleão em terreno espanhol. Em Portugal, como sabemos, aconteceu algo parecido, se bem que longe do rastro destrutivo que o conflito teve no país vizinho. Portanto, Johnny embarca, ao que parece como capitão, para «o Rei de Espanha desancar». E tudo em nome «do brio da Irlanda». Seria interessante investigar porque estaria o orgulho irlandês em jogo. Apenas para dar provas da coragem do seu povo? Ou, vendo que o poema tem motivos irónicos (o Johnny que dá emprego à polícia) e algo jocosos (o flautista que triste se retira para soprar o fogo da lareira com os seus foles), talvez qualquer sentido mais profundo daí se retire, como, por exemplo, uma promessa de independência ou mostra de força, em terra estrangeira, do carácter irlandês face ao seu colonizador.
No entanto, é também provável que o tema seja um pouco mais recente, e o conflito em causa seja as Guerras Carlistas, ocorridas a partir de 1833, um conflito entre absolutistas (o irmão do rei, D. Carlos de Borbón) e liberais (a regente Maria Cristina, apoiada pela rainha Isabel II). Ora, os ingleses apoiavam estes últimos e sabe-se que entraram no conflito com uma legião de dez batalhões, onde figuravam escoceses e irlandeses - como, aliás, era comum nas recrutas daqueles tempos. Como Carlos se auto-proclamou Rei, é bem possível que o último verso da primeira quadra detenha a chave da correspondência com o que se diz: «o corrupto Rei de Espanha». É por isso que muitos consideram mais credível esta hipótese, apesar de corrupto poder igualmente ser o irmão de Napoleão, que naquele tempo assumiu o trono espanhol.
Exactamente trinta anos depois do conflito carlista a canção surge editada na fonte já antes citada, ainda que com o nome diferente daquele que se foi tornando habitual: O Lamento das Raparigas de Bantry por Johnny - surgindo creditada como uma canção sobre a vida rural da Irlanda. Para todos os efeitos, evitando confusões, adoptámos o título moderno que à canção se concede, apenas para não incorrer no risco de dar a ideia de tratar-se de uma composição diferente. Já o esquema de rima original, como sempre, foi respeitado. Antes de encerrar, damos ainda nota que aqui se apresenta o texto completo como se conhece na sua impressão, e não como é usualmente cantado - pois em norma os intérpretes tendem a excluir a quarta quadra do poema. 








(The Parting of Robert Burns and Highland Mary,
James Archer (1822 - 1904))


terça-feira, 14 de agosto de 2018

A VACA TRESMALHADA


Há muito tempo atrás, as proximidades do lago chamado Llyn Barfog¹ eram habitadas por fadas. As águas do lago eram escuras e profundas e nunca lá se havia avistado um peixe. As fadas costumavam sair ao crepúsculo das noites de verão, vestidas de verde, acompanhadas pelos seus cães e pelas suas cabeças de gado, todas elas do branco mais puro. Porém, raramente se deixavam ver.

Um dia, um agricultor que passava ali perto teve a sorte de avistar um dos Gwartheg y Llyn². E logo resolveu capturá-lo. A partir desse dia, a sua sorte mudou. Tornou-se rico e abastado, pois o leite da vaca das fadas era o melhor da região e toda a gente o queria comprar. O mesmo acontecia com o queijo e a manteiga, que se tornaram dos alimentos mais cobiçados e fizeram da Fuwch Gyfeirliorn³ o animal mais famoso da zona. 

No entanto, o homem ficou tão rico que enlouqueceu e começou a ficar com medo de que a vaca encantada se tornasse demasiado velha para dar leite. Decidiu, pois, engordá-la e ir vender a sua carne no mercado.

No dia anunciado para matar o animal, todos os vizinhos vieram assistir à matança. O agricultor, indiferente aos gemidos da vaca e aos seus olhos suplicantes, amarrou-a e o carniceiro levantou o machado, pronto a desferir o golpe fatal. Nesse instante, ouviu-se um grito agudo e estridente, vindo dos confins do bosque junto da povoação, que paralisou o braço do carniceiro e este deixou cair o machado. Olhando na direcção do grito, as pessoas viram a figura de uma mulher, vestida de verde, que, em pé em cima de um rochedo, os olhava, de braços abertos. De repente, começou a cantar numa voz sonora e profunda:

Vem, Einion,
Vem, Vaca do Lago,
Volta para casa.

Assim que as palavras morreram no ar, a Vaca Tresmalhada e toda a sua prole, até á quarta geração, dirigiram-se para o lago. Percebendo o que estava prestes a acontecer, o agricultor correu atrás do gado, mas não conseguiu alcançá-lo. Quando finalmente chegou junto do lago, cansado e ofegante, apenas teve tempo de ver a mulher vestida de verde, rodeada pelas cabeças de gado, a desaparecer na superfície escura das águas. A marcar o lugar do seu desaparecimento apareceu um lírio-d´água de cor amarela.

Rapidamente o agricultor perdeu toda a sua fortuna, mas muito poucos tiveram pena dele por ter tentado matar o animal que lhe tinha dado tanto dinheiro.




(Conto extraído de "Os Tylwyth Teg ou Povo Belo").






(Tradução de Angélica Varandas in "Mitos e Lendas Celtas do País de Gales", Clássica Editora, 2012








(1) Lago do Homem Barbudo.


(2) Gado do Lago.


(3) Vaca Tresmalhada.








terça-feira, 10 de julho de 2018

A ROSA SECRETA


Distante Rosa, secretíssima e inviolada,
Toma-me na hora para mim destinada,
Onde quem no Santo Sepulcro te procurou,
Ou no tonel de vinho, vive para lá do que o perturbou
E do tumulto dos sonhos derrotados; e no fundo,
Entre pálidas pálpebras pesadas de fecundo
Sono, o Homem nomeou a beleza. Nas tuas folhas o tesouro
De barbas ancestrais, os elmos de rubi e ouro
Dos Magos coroados; e do rei¹ que com seus olhos viu
As Mãos Perfuradas e a Cruz Antiga que subiu
Em druídico vapor, as tochas apagando
Até ao vão delírio por que ele tombou agonizando;
E desse² que encontrou Fand³ por entre orvalho fulgente,
Numa costa sombria onde jamais soprava o vento,
E por um beijo dela perdeu o mundo e Emir⁴;
E desse que fez os deuses saírem da cidadela⁵
E, até despontarem cem rubras auroras, celebrou
E sobre as campas dos seus mortos chorou;
E do rei orgulhoso e sonhador⁶ que recusou o fardo
Da coroa e da mágoa e, chamando bobo e bardo,
Errou na floresta entre viandantes de vinho manchados;
E desse que vendeu a casa e as terras e os arados⁷,
E buscou por ermos e ilhas um tempo infindo
Até enfim encontrar, chorando e rindo,
Uma mulher de porte tão radioso e belo
Que à noite os homens debulhavam milho sobre seu cabelo,
Uma fina trança furtada. Também eu aguardo com ardor
A hora da tua rajada de ódio e amor.
Quando do céu se hão-de as estrelas atear
Como fagulhas de uma forja, e expirar?
Chegou seguramente a tua hora, sopras a forte rajada
Distante Rosa, secretíssima e inviolada?




W. B. Yeats (1865 - 1939)







(Tradução de Margarida Vale de Gato in "Onde Nada Existe", W. B. Yeats, Relógio D'Água Editores, 2000)








(1) Trata-se de uma referência a Conchobar, um rei do Ulaid ou Ulster, um pequeno reino onde hoje existe a Irlanda do Norte, e que terá subsistido entre os séculos V e XII.
É possível que se trate efectivamente de uma personagem real, mas a sua vida é contada no seio de tanta fantasia que a dúvida subsiste. Além disso, os contos sobreviventes que relatam a história deste e outros monarcas, bem como doutros personagens relevantes, pertencem a um capítulo da mitologia irlandesa denominado "O Ciclo de Ulster", pelo que será sempre ténue a fronteira entre realidade e fantasia.
Resta acrescentar que, mais tarde, Yeats admitiu ter cometido um erro no verso em questão. Segundo a história, Conchobar não teve qualquer visão sobre o crucifixo na hora da sua morte, esta fora-lhe antes contada - e então daí resulta o seu estranho falecimento. A história conta-se, é preciso que se diga, numa linha de forte influência cristã. Não obstante, o poema de Yeats permaneceu sem alteração.


(2) "Esse" é somente o maior guerreiro e herói da mitologia irlandesa, no referido capítulo, ainda que tenha uma vida curta: Cúchulainn. É muitas vezes tido como a encarnação de Lugh, deus do sol, da tempestade ou do céu, conforme a interpretação, e que também é o seu próprio pai. 
Lembra em alguns aspectos o Hércules grego e o herói persa Rostam, que também acidentalmente mata o filho. A sua fama passou fronteiras e chegou ao folclore escocês e manx (Ilha de Mann). 


(3) A esposa do deus do mar, Manannán Mac Lir (Manannám, Filho de Lir).


(4) A esposa do nosso herói Cúchulainn. 


(5) Yeats admitiu, um dia, ter criado este verso a partir do que leu sobre Caolte, sobrinho de Fionn Mac Cumhaill (líder dos Fianna, uma tribo de guerreiros semi-independente), mais concretamente na batalha de Gabhra - em que quase todos os seus companheiros foram mortos, o que fez «os deuses saírem da cidadela». 
O relato encontra-se escrito num capítulo denominado "Ciclo Feniano".  


(6) Trata-se de outro rei do Ulster, Fergus Mac Róigh (Fergus, Filho de Róigh).
Apesar do que o poeta escreve, conta-se que num esquema bastante ardiloso e demorado  Fergus vê o trono usurpado por Conchobar, seu enteado. Em resposta à traição, alia-se à sua maior inimiga, a rainha Medb, de Connacht, tornando-se seu amante. Juntos invadem o Ulster, mas sem sucesso. 


(7) Yeats, uma vez mais posteriormente à edição deste poema, admite que inventou aquele «que vendeu a casa e as terras e os arados» a partir do conto The Red Pony (O Pónei Vermelho), antologiado num livro de 1893 chamado "Contos Populares do Ocidente Irlandês".  











quarta-feira, 6 de junho de 2018

DANNY, MEU QUERIDO


Oh, Danny, meu querido, por ti as flautas¹ clamam;
de vale em vale, pelas encostas estão a ecoar. 
O verão terminou, e todas as flores murcham;
é hora, é hora de partir - por ti deverei esperar.

Mas volta quando ao prado regressar o verão,
ou quando o vale se cobrir por nevado manto;
estarei aqui, ao sol ou à sombra sem hesitação,
oh, Danny, Danny meu querido, quero-te tanto.

Se regressares quando todas as flores murcham,
e esteja eu morta, pois é certo que possa estar,
virás a descobrir o lugar onde me sepultam,
e ajoelhando uma Ave Maria irás murmurar. 

Escutar-te-ei, embora o teu passo seja delicado,
e todos os meus sonhos serão mel e cetim;
se o amor que me tens não for olvidado,
repousarei em paz até que voltes para mim.



Frederic E. Weatherly (1848 - 1929) ²







(Versão de Pedro Belo Clara a partir do original, onde se preservou o esquema de rima eleito pelo autor - não obstante as naturais adaptações feitas num esforço por mantê-lo). 





(Tratando-se de uma das mais populares e universais canções irlandesas de sempre, torna-se difícil eleger a melhor interpretação. Pela doçura das vozes, e porque a versão apresentada faz melhor sentido quando cantada por uma voz feminina, optámos pela versão das Celtic Woman. Desfrute: https://www.youtube.com/watch?v=DquA6KyHTos ).






(1) Do original "pipes". Embora se refira quase de certeza à gaita-de-foles, em inglês "bagpipe", a escolha de tal termo não deixa de conter uma certa subjectividade, já que um outro qualquer instrumento de sopro parecido a esse poderá igualmente ser designado do mesmo modo (repare: Bag + pipe = Flauta ou Gaita de saco, literalmente; e ainda Pan + Pipe = Flauta de Pan). Portanto, "pipe" refere-se a um tubo onde, soprando, o ar passa, com buracos que, pressionados pelos dedos, em determinada ordem, originam uma melodia. Assim, optou-se por "flautas", mesmo sabendo dos riscos desta escolha. Opções como "gaitas" ou mesmo "gaitas-de-foles", pela melodia que em português tais palavras exalam, pareceram-nos hipóteses capazes de trazer dissonâncias aos versos traduzidos. Poderíamos ainda optar por "gaiteiros", pois o primeiro verso do poema-canção refere, segundo algumas interpretações que até carecem de maior fundo de argumentação, um chamamento para a guerra. Nos tempos medievais, os ingleses anunciavam os seus recrutamentos desse modo, tocando gaitas-de-foles que se escutavam por quilómetros, embora este instrumento, tão raramente associado aos ingleses, se torne difícil de imaginar tocado por um deles. O mais provável seria um oficial local de baixo nível tocar o instrumento no início do processo de recrutamento, mas dada a sua ligação ao exército como poderia ser correcto chamá-lo de gaiteiro? Mais um motivo, pareceu-nos, para firmar a escolha de "flautas".



(2) Weatherly foi um famoso advogado inglês, nascido no Somerset, que escreveu livros infantis e realizou duradouras incursões pelo mundo da rádio, embora os maiores sucessos da sua vida tenham advindo da composição de canções, a grande maioria dentro do estilo popular, ou folk. Julga-se que seja o autor de cerca de mil e quinhentos temas, ainda que, esclareça-se, maioritariamente no que toca à parte cantada, na medida em que tinha o hábito de pegar em melodias já existentes e então escrever uma letra que considerasse adequada.
Na verdade, está nesse método a origem desta canção, tão popular entre os irlandeses. É muito provável que a esmagadora maioria destes se espante ao saber que, afinal, um tema tão intimamente irlandês tenha sido escrito por um advogado inglês, mas, como já se viu, Weatherly foi um profícuo letrista, tendo coleccionado ao longo da vida inúmeros sucessos que versavam sobre diversos assuntos. 
Naquele tempo, era usual um letrista vender as pautas da sua música a cantores amadores. Era, pelo menos, o melhor meio para entrar na indústria e conseguir a divulgação do seu trabalho. Tendo em conta que em regra não sabiam quem iria comprar as pautas, se homem ou mulher, convinha que a canção fosse o mais geral e abrangente possível, de modo a aumentar o seu público-alvo. Weatherly era deveras astuto nesse sentido, pelo que quase todas as suas canções cumpriram o mesmo método.
Mas tal levanta grandes problemas no que toca à interpretação deste tema em concreto. É importante referir que muitos estudos marcam o nascimento da melodia no início do séc. XVII. Terá, assim, surgido pelas mãos de um harpista irlandês cego, Rory O'Cahan, descendente de um poderoso clã. Um dia, nos primeiros anos de 1600, Rory assistiu ao confiscar da maioria das terras onde os seus antepassados haviam vivido. Revoltado, decidiu compor uma melodia plena de dor e comoção, de forma a dar vazão aos seus mais profundos sentimentos. Nascia assim o "O'Cahan's Lament" (O Lamento de O'Cahan), embora haja quem o considere um elogio fúnebre, composto em honra de um parente falecido. Há, contudo, uma lenda curiosa a respeito da primeira hipótese: numa noite em que estaria extremamente alcoolizado, Rory terá surpreendido um grupo de fadas que tocavam na sua harpa uma melodia belíssima, e o músico, quando recuperou do seu excesso etílico, apressou-se logo a registar as notas que havia escutado. Obviamente, afastar-se-á a lenda da verdade do que aconteceu, mas não deixa de ser uma hipótese plena de interesse lúdico - e que achámos por bem partilhar com os nossos leitores.
A dita melodia, que seria muito mais tarde conhecida por "Danny Boy", ressurgiu no século XIX pela harpa de um outro músico cego e itinerante, Denis O'Hampsey, que chegaria à magnífica idade de 112 anos (!). Ora, Denis, ficando cego muito novo, decidiu desenvolver o seu enorme talento para a música e, a dada altura, terá sido aluno de uma familiar de Rory, que lhe passou a melodia composta por esse também cego músico, assim como muitas outras do seu imenso repertório. Graças às suas viagens, Denis ajudaria a espalhar o tema pela Irlanda e não só, já que também o apresentou aos escoceses que o desejavam ouvir. A dada altura conhece Edward Bunting, um jovem colector de música tradicional irlandesa, mais tarde o autor de um livro lançado em três volumes que antologiava diversos temas populares, incluindo o nosso belo lamento.  
Os anos foram passando e o tema, cada vez mais famoso, tornou-se usual no repertório de vários músicos deambulantes, pois no que toca à arte popular a transmissão oral era um dos primeiros modos de preservar esse valiosíssimo património. Em 1851, na cidade de Limavady, em Londonderry, na actual Irlanda do Norte, junto ao mercado local um músico cego (outro, curiosamente), Jimmy McCurry, tocou um tema que despertaria a atenção de Jane Ross, que morava no outro lado da rua. Tendo escutado a melodia, admirado a sua cativante beleza e, depois, sabido-a estranha ao seu conhecimento vasto, contactou um seu amigo entusiasta de canções populares, Dr. George Petrie, que quatro anos depois a publicaria num livro da sua autoria, ainda sob a classificação de anónima. Não obstante, deve-se a Jane Ross o primeiro grande impulso para a universalização do tema, quase 250 anos depois da sua criação, e que posteriormente ficaria conhecido por "Londonderry Air", ou Canção de Londonderry - mais raramente, surgia creditada como Canção do Condado de Derry. Estranhamente, Jane Ross não achou importante saber quem era o músico que a tocava e onde a tinha aprendido, tampouco quem seria o ser verdadeiro autor. Apenas escutou, apreciou e, registando a melodia, a enviou a alguém que sabia ser apreciador do género. Contudo, é interessante saber que a área de Londonderry fez parte, entre os séculos 12 e 17, dos domínios do clã O'Cahan. De certa forma, parece que o tema não abandonou o seu lar de nascimento. 
É claro que, como é natural que aconteça nestes assuntos, a história não é certa nem todos os seus contornos merecem a aprovação da globalidade dos estudiosos. Apresentamos, por isso, apenas a versão mais usual do tema em questão, apesar dos diversos pontos que ao conto parecem ter sido acrescentados pelos descendentes dos intervenientes mais directos. Mas continuemos. 
Mais tarde, uma outra mulher, Margaret Weatherly, que emigrara para os Estados Unidos com o seu marido durante a febre do ouro, escutou um grupo de mineiros que cantava um tema que considerou de rara beleza. Curiosamente eram australianos, pois foi um músico desse país o primeiro a gravar o tema "Londonderry Air". Fascinada, registou a melodia e de pronto a enviou ao seu cunhado, o nosso já bem conhecido advogado-compositor Frederic. 
Mal recebeu a canção interessou-se logo por ela. Estávamos em 1912, e dois anos antes Frederic havia composto e lançado um tema chamado "Danny Boy", que resultou num completo fracasso. Ao ler a música, notou que a letra do seu "Danny Boy" encaixava quase na perfeição na melodia que lhe chegara da América, e não hesitou em trabalhá-lo no imediato. Um ano depois, em 1913, o tema seria lançado, não sem alguns dissabores: Graves, um outro compositor seu amigo, havia escrito dois temas para a mesma melodia, e não apreciou que Weatherly tenha tido a mesma ideia. Ademais, acusou-o de usurpar algumas das suas ideias na criação da nova letra, enquanto que Weatherly afirmava que as letras de Graves não se encaixavam no espírito da melodia. Lançou também os seus dois temas, mas nunca obtiveram o estrondoso sucesso do "Danny Boy" de Weatherly, o que levaria ao fim da amizade entre ambos. 
Logo no início o advogado inglês afirmou ter composto um tema dedicado aos nacionalistas e unionistas da Irlanda, e que era o seu sonho ver ambas as partes cantarem a sua canção, no esforço de ver arredadas as suas diferenças e na esperança de uma convivência comum e pacífica entre todos. Acrescentou, também, que o tema nada tinha de bélico, nem apelava a guerras ou revoltas, sequer inseria-se em contexto de derramamento de sangue. Ora, isto contrasta com a ideia que o primeiro verso nos dá, conforme antes falámos. Se as flautas não chamavam Danny para a guerra, por que tocavam sequer? Por que iriam chamar por ele, conforme o sujeito da canção refere? Não faz grande sentido, diga-se, mas de qualquer modo aceitemos as palavras do próprio autor.
É óbvio que por tais motivos o tema tornar-se-ia muito popular na Irlanda. Ainda hoje em dias os irlandeses do norte, desprovidos de hino, assumem a canção como sendo o seu tema nacional. Mas os oriundos da república independente também partilham desse sentimento, pelo que o sonho de Weatherly parece ter-se cumprido. 
Portanto, não sendo uma canção de partida para a guerra... o que será, então? Muitos vêem nela a despedida de um chefe de clã irlandês a seu filho, de... partida para a guerra. Certa vez, em concerto, a vocalista do famoso grupo The Seekers, Judith Durham, anunciou o tema como tendo sido composto por um pai que via o seu terceiro filho partir para a guerra, após a morte dos outros dois. Ora, se o próprio autor nega esta vertente do tema, importa afastar de vez tal cenário. Sobra, portanto, a hipótese de canção de amor. Outros ainda vêem uma partida para a América em plena Grande Fome na Irlanda, deixando uma mãe para trás, mas como poderão aqui as flautas se encaixar? Danny vai imigrar e as flautas chamam por ele? Além disso, observando melhor o texto nota-se que a última quadra refere um certo tipo de apego e proximidade que não parece usual no amor filial. A ideia de regressar e ver morto o ente amado, e este admitir que espera tranquilo pelo dia em que o outro virá para o seu lado parece mais adequado a um amor romântico. Será, assim, uma canção de amor, embora a partida de Danny, suas razões e destino, permaneça um mistério. 
Diga-se que Weatherly tinha, de facto, um filho com o mesmo nome, e que viria a falecer em combate durante a primeira Grande Guerra. Em três meses, o advogado inglês perdia o pai e o filho, mas lembremo-nos que o tema foi publicado em 1913, pelo que qualquer relação com tais acontecimentos só poderia surgir de alguma capacidade mediúnica de Weatherly, dom esse que sabemos hoje que não detinha. Além disso, alguns anos depois, numa nova publicação do tema o autor esclareceu, em breve nota, que "Danny Boy" deveria ser cantado por uma voz feminina, e se fosse o cantor um homem então deveria alterar o título e algumas passagens para "Eily Dear" (Querida Eily). Como a tradução literal seria algo como "Danny, meu rapaz", mas que ganha outro nome e um outro qualificativo na mudança de intérprete, no caso "Querida", decidimos arriscar e escolher esse mesmo adjectivo na nossa versão. Convenhamos: quão comum será em português a amada dirigir-se ao ente amado como "meu rapaz"? É de facto um tratamento que sugere uma pessoa mais velha, como pai ou mãe, mas aqui voltaríamos à contradição antes referida. Como de novo se constata, o carácter geral e algo ambíguo da letra desta canção permite várias interpretações e, mais importante ainda, deixa no ar diversas dúvidas quanto ao seu real significado, se algum haverá. Mas foi essa a estratégia do grande sucesso de Weatherly - permitir que qualquer um pudesse cantar os seus temas.
Terminaremos dizendo que ao longo dos anos diversos cantores interpretaram esta canção, e alguns tão distintos como Mario Lanza ou Elvis Presley, contribuindo também para a sua difusão quase universal. Nesse processo, certos reparos foram sendo feitos, certas alterações à letra original, e foram essas tão vincadas que muitos atribuem a Weatherly versões que ele próprio não compôs. Pelo que a nossa pesquisa permitiu descobrir, usámos a original de 1913, como convém. As outras propõem trocas pouco significativas, embora muitas vezes cantadas, estando a principal no segundo e terceiro versos da última quadra: a troca de "sonhos" por "campa" e o "amor olvidado" por "amor confessado". Em todo o caso, consideramos que deverá sempre prevalecer a versão original do autor. Mesmo que a mudança da mesma para o português tenha aproximado o texto mais do molde de poema do que de canção, todas as intenções originais que nele se descobriram foram obviamente mantidas - incluindo a forte inclinação para o género canção de amor.









Calypso's Island, Departure of Ulysses - 
Samuel Palmer (1805 - 1881)




segunda-feira, 21 de maio de 2018

DE NOVO UMA NAÇÃO


Quando no sangue tinha dos jovens o ardor,
li sobre esses livres homens ancestrais
que pela Grécia e Roma lutaram sem temor,
trezentos homens e outros três, não mais¹;
então, rezei para que ainda pudesse ver
dos nossos grilhões a libertação,
e a Irlanda, há muito uma província, ser
de novo uma nação! ²

Desde esse tempo, por árduas provações
tal esperança brilhou numa luz distante;
nem pôde o amor, com seus fulgentes clarões,
ofuscar a sóbria cintilação de estrela brilhante;
parecia pairar sobre minha cabeça, observando,
na praça, no campo, no templo de oração;
a sua angelical voz em torno do leito cantando:
de novo uma nação!

Sussurrou, também, que a arca da liberdade
e um serviço nobre e sagrado
seria por sentimentos de obscuridade
e por vãs ou baixas paixões profanado;
mas a mão direita de Deus a Liberdade irá prover,
e um numeroso séquito de divina acção;
os homens honrados devem desta terra fazer
de novo uma nação!

Enquanto ia em homem me tornando,
ajoelhei-me diante de tal chamamento;
e de planos egoístas o espírito fui expurgando,
sem deixar as cruéis paixões ao esquecimento;
assim, espero um dia o meu auxílio dar
- oh, pode tal esperança ser em vão? -, 
quando o meu querido país enfim se tornar
de novo uma nação!




Thomas Osborne Davis (1814 - 1845) ³







(Versão de Pedro Belo Clara a partir da composição original).






(A partir deste poema musicaram-se várias versões, fruto da criatividade de diversos artistas. Para si, estimado leitor, seleccionámos a do popular grupo The Dubliners. Desfrute: https://www.youtube.com/watch?v=88-qgHh31bw ).















(1) Estes «trezentos homens e outros três» são, em primeiro lugar, uma referência aos trezentos espartanos que fizeram frente ao imenso exército persa em 480 a.C., durante a batalha de Termópilas, e os restantes três, ligados a Roma, serão provavelmente fruto duma evocação de Públio Horácio Cocles e de mais dois companheiros que, evitando a invasão da cidade por parte dos etruscos, os defrontaram em plena ponte Sublício, ou Aventino. Eventualmente, pois trata-se de uma lenda, a ponte acabaria demolida - apenas uma das diversas ocasiões em que assim se encontrou. 
É óbvio que a bravura de tais feitos inspirou o autor a transpor o seu exemplo para a realidade irlandesa de então. Em 1842, por exemplo, saiu um livro denominado "Poemas da Antiga Roma", da autoria de Thomas B. Macaulay, onde se conta um que relata a lenda de Horácio. É muito provável que o nosso poeta tenha lido tal obra, tomando assim conhecimento do sucedido pela primeira vez. 



(2) Também nos parece clara a indicação do autor ao referir, de modo constante, o «de novo uma nação», aludindo, portanto, àquilo que a Irlanda era antes da chegada e consequente domínio britânico, governo esse que durou mais de setecentos anos. Recorde-se que a ilha permaneceu livre da influência romana, prosperando sobre as regras tribais e modos de vivência dos celtas, até à sua evangelização por São Patrício. Anos depois, tornou-se num autêntico santuário para diversos monges em busca de silêncio e reclusão. 


(3) Apesar da sua breve vida (viria a falecer com apenas trinta anos, vítima de escarlatina), Davis viria a compor um dos mais célebres hinos que existem em favor da independência da Irlanda. 
Nascido em Mallow, no Condado de Cork, e privado de uma figura paterna desde um mês de idade, sentiu muito cedo em si o apelo independentista. Apesar de ter um pai galês, a mãe descendia de uma nobre família gaélica. O papel que terá essa herança desempenhado no jovem Davis não poderemos afirmar com clareza. A verdade é que este jovem advogado, com grande talento para a poesia, mas principalmente para reunir pessoas em torno da música, das palavras e daquilo que através de ambas se difundia, participou na fundação do movimento "Young Irland", que aliado a um famoso jornal da época tornou-se, em meados do século XIX, uma das principais vozes a exortar à libertação do jugo inglês, dando assim sólida forma aos primeiros passos do nacionalismo irlandês. 
De facto, é isso que este poema-canção faz. Não se estranha, portanto, a sua rápida popularidade desde a edição, em 1844, e mais tarde a elevação quase mítica que o tema experienciou, na longa batalha em favor da independência e, posteriormente, da reunificação do território - ainda não conseguida, acrescente-se. É, por isso, o exemplo perfeito da "Irish Rebel Music", que corresponde sem grande desvio às nossas bem conhecidas canções de intervenção. É curioso constatar, contudo, que ao longo da sua reflexão o poeta instiga os homens honrados e os homens com ligações religiosas a tomarem partido no movimento («numeroso séquito de divina acção»), também certo do seu poder no seio da sociedade irlandesa. É, pois, bastante subtil a sua forma de apelar aos corações de cada um, lançando habilmente as achas para o incêndio que gostaria de ver deflagrar. 
Refira-se que a canção surge muito antes da famosa Revolta da Páscoa. Os únicos movimentos do género com relativo impacto haviam surgido ainda antes do nascimento do autor, em 1798 e 1803. Quem sabe o papel, graças à sua notoriedade, que teve em incitar as futuras rebeliões?
Apesar da originalidade dos versos, diga-se que a melodia escolhida sofreu algumas influências de Mozart. A versão portuguesa que se propõe foi leal ao esquema de rima original, apenas se cortou, preservando assim a sua identidade de poema, aquele que seria o refrão desta canção, e que mais não é do que a repetição do último verso de cada oitava, entremeado com a referência da Irlanda ser há muito uma província. 
Davis não veria o seu «querido país» independente, mas terá sido um dos principais motivadores de tamanha conquista. Esteja onde estiver, decerto estará com um sorriso no rosto.  












terça-feira, 24 de abril de 2018

Três poemas de amor da tradição oral galesa


I. A raiz e o ramo


Não vejo razão para assim mostrares
os olhos zangados.
Será porque há outras que olham meus olhos
e gostam de mim?

Devias saber que o vento ao soprar
os ramos agita
mas seja quem for, só com enxada
arranca a raiz.



II. Os passos leves


Não há outra estrela como a minha amada,
flor das flores da minha aldeia.
Sob os seus passos não se move a erva,
nem a rocha treme quando a ave pousa.



III. Jamais o sol


Belo é o sol quando sorri
em plena glória.
Bela é a lua e o seu sorriso
na noite serena.
Mais belo, porém, o riso suave
do meu amor.

Bela é a lua vogando nas ondas.
Belas as estrelas no brilho da noite.
Mas nunca as estrelas, jamais a lua,
terão a beleza, um pouco sequer,
da cor e da luz que moram nos olhos
do meu amor.




Anónimos (Séc. XVII)






(Tradução de José Domingos Morais in "O Imenso Adeus - Poemas Celtas do Amor", Assírio & Alvim, 2004)











(Fleurs de Cerise, de Émile Vernon (1872 - 1919))