quarta-feira, 14 de abril de 2021

A APARIÇÃO DE ARRAN

 

Há cerca de um século atrás, vivia em Arran¹ uma velha senhora de nome Marie Nic Junraidh, ou Mary Henderson, que era consideravelmente baixa, mas bastante inteligente e corajosa.

Numa noite escura, já tarde, regressava ela a casa quando se viu forçada a atravessar uma ponte que tinha fama de estar assombrada por algo terrível, algo que atemorizava os mais fortes e intrépidos homens. Mas como era já de noite e estava muito escuro, a pequena mas corajosa senhora granjeou ânimo para atravessar a ponte. 

Quando nela pôs o seu pé, viu uma aparição terrível formar-se à sua frente. Como não iria voltar para trás, dirigiu-lhe palavra; e palavra foi-lhe de volta dirigida. Então, assumiu uma forma humana esta estranha aparição, uma forma que Mary logo reconheceu.

– É vossemecê, Finlay? – perguntou.

A aparição disse que sim, que era Finlay.

Mary afirmou que o havia conhecido quando era vivo, mas que já estava morto há alguns anos. E a aparição disse que era tudo verdade, que ele mesmo era Finlay.

– Então, – prosseguiu Mary – qual o motivo para aparecer assim, diante de uma frágil e pequena mulher, procurando perturbar-me? Porque não apareceu vossemecê a um homem de coragem, se algo tem a dizer?

– Eu apareci várias vezes diante de homens bravos – respondeu o espírito –, mas todos eles se assustavam e punham-se em fuga sem trocar palavra comigo. Fez bem em ficar e falar-me, pois agora posso dar descanso à minha mente.

«Quando tinha corpo, roubei alguns arados de ferro; e não posso descansar enquanto não forem entregues ao seu  legítimo dono. Vá, então, amanhã, sem falta, àquele lugar além, e aí encontrará os ditos arados. E se pegar neles e os deixar à beira do caminho, então terei o meu descanso e não mais perturbarei vivalma.

A pequena mulher ganhou ainda mais coragem e colocou várias perguntar à aparição, sendo todas elas prontamente respondidas. Disse-lhe por mais quantos anos viveria, ela, seu esposo e alguns membros da família. Disse-lhe também como se encontravam vários amigos e vizinhos seus, já falecidos; e disse-lhe que avisasse um certo vizinho seu, que grandes perigos corria graças às suas acções mal-intencionadas.

Mary prometeu que satisfazeria todos os seus pedidos. Então, o espírito desapareceu, permitindo assim que Mary atravessasse a ponte e chegasse sã e salva à sua casa.

Na manhã seguinte, deslocou-se ao lugar indicado pelo espírito e descobriu os arados. Pegando neles, deixou-os na beira da estrada, como prometido, onde o seu antigo dono os viria a encontrar. No entanto, foi sabido que este não viveu por muito mais tempo depois de os ter recolhido. Mary fez o aviso ao seu vizinho, que o aceitou, arrependendo-se assim dos seus pecados. Tanto Mary como o seu esposo viriam a falecer no exacto ano que fora previsto.

Depois do seu encontro com o espírito, a ponte deixou de estar assombrada durante as noites - e nunca mais estranhas aparições atemorizaram nesse lugar vivalma






Tradicional (Escócia).








(Nota: Este relato surge originalmente no livro de Cuthbert Bede "The White Wife" ("A Esposa Branca"), onde se refere a sua origem: a fonte do autor da obra, que permaneceu oculta, escutara-a, no início do século XIX, da boca de uma piedosa mulher natural da ilha de Arran, que fora amiga íntima da pequena senhora e do seu esposo. Terá, então, o relato mais de verdade que de fantasia?)











(Versão de Pedro Belo Clara a partir da versão de Neil Philip, publicada em "Scottish Folktales" - Peguin Books, 1995.)










(1) A ilha de Arran situa-se na costa ocidental da Escócia, perto da península de Kintyre.
















(Vista parcial da ponte sobre o ribeiro Blackwaterfoot, em Arran
- Autor desconhecido.)


quarta-feira, 17 de março de 2021

ENQUANTO PASSEAVA


Enquanto passeava numa radiante manhã de maio,
querendo admirar os prados e as alegres flores,
quem vejo, sentada à sombra dum salgueiro, 
senão o maior de todos os meus amores.

O chapéu de pronto retirei, e então a saudei,
cumprimentando-a de ânimo reforçado.
Quando se voltou, as lágrimas corriam.
Disse: "Rapaz falso, haveis-me enganado."

"Um anel de diamantes eu te dei,
um anel de diamantes para na mão direita usar."
"Mas os votos, amor, que fizeste os quebraste
quando com a moça endinheirada foste casar."

"Se com a moça endinheirada me casei, amor,
até ao dia em que morrer o lamentarei;
quando o infortúnio chega, quem o pode evitar?
Estava cego, e jamais o negarei."

Agora, quando à noite na cama me deito,
toma-me o pensamento meu amor verdadeiro.
Quando me volto para abraçar a quem amo,
em vez de oiro encontro latão corriqueiro.

Como queria que a Rainha retirasse o exército
das Índias Ocidentais, América, da Espanha distante,
ver cada homem regressando para a sua noiva,
e nós dois de novo juntos: amada e amante.



Tradicional (sécs. XVIII ou XIX) 
- versão de Andy Irvine. (*)












(Versão de Pedro Belo Clara a partir da versão inglesa mais difundida do tema.)






(Dentre várias possíveis, seleccionámos a versão de Kate Rusby. Poderá escutá-la aqui: https://www.youtube.com/watch?v=4b9L8RplnSw .)












(*) Mais uma canção tradicional de origens obscuras.
A versão seleccionada é a que mais comummente se escuta nos tempos modernos, e foi apresentada durante a década de 70 pela banda Planxty, de Andy Irvine. Este admitiu que a escutou de Paddy Tunney, um cantor norte-irlandês, natural de Letterkenny, no condado de Donegal. Paddy, por sua vez, referiu-se ao tema como sendo uma canção do tempo da Grande Fome, uma vez que, em súmula, retrata um jovem que rompeu o noivado com a rapariga que verdadeiramente amava a troco de posses (no original faz-se referência a "terras"), isto é, dum casamento seguro. Ora, tal comportamento era bastante comum na Irlanda nesses tempos tão fatídicos, onde quem havia ficado no país, estando desprovido de propriedades e, portanto, meios de subsistência seguros, arriscava tudo num casamento sem amor, mas com o conforto dado pelos bens da nova família. 
Porém, uma investigação mais profunda revela que essa será apenas uma faceta da história, tratando-se antes duma canção que resultou de diversas influências, talvez até bem mais antigas.
Primeiro, há a questão da última quadra, perfeitamente fora do tom do restante poema. Nela, existem referências à Rainha e ao exército (britânico, entenda-se) estar em Espanha. Ora, no tempo da Grande Fome governava Inglaterra e suas colónias a Rainha Vitória, e esta monarca nunca se envolveu militarmente com Espanha. Quem teve destacamentos militares nas três regiões que o verso indica, havendo a indicação de ser uma Rainha, foi Ana, a última monarca da casa Stuart, que governou no princípio do séc. XVIII. Terá sido nesta época escrita, pelo menos a quadra final? Não é certo afirmá-lo com convicção, pois subsiste a sensação de ter sido colocada à força num talvez novo texto. 
Mais tarde, descobriu-se no diário dum capitão escocês que se viu envolvido na Guerra da Crimeia, por volta de 1853, uma cópia desta canção. Os versos são ligeiramente distintos, mas dão crédito a uma possível origem escocesa. Resolve, inclusive, o mistério da última quadra, onde já é feita referência a um Rei, e dá-se a menção aos casamentos estrangeiros, isto é, casamentos ocorridos durante a estadia, longa, dos soldados em terras estrangeiras. Os países enumerados nessa versão são também diferentes da versão irlandesa, e a razão do casamento com uma mulher de posses é entendida como uma pressão dos amigos do noivo para que deixasse aquela a quem realmente amava, precavendo-se assim para o seu futuro.
Parece-nos, então, que a versão irlandesa do tema nasce duma mistura doutros textos e canções, desde logo um inglês, de nome "The False Bride" ("A Falsa Noiva"). Mas é sem dúvida o texto escocês que mais influenciou este que aqui apresentamos, e uma das provas da sua origem é o recurso à palavra "lassie", isto é, "moça", muito mais comum entre escoceses do que irlandeses. É, pois, provável que a canção tenha viajado de boca em boca para a actual Irlanda do Norte e daí se tenha naturalmente difundido pela restante ilha. 
Não obstante os seus desafios de interpretação, lógica e origem clara, é hoje uma canção indispensável em qualquer reportório folk












"A Wife",
de John Everett Millais 
(1829 - 1896)


sábado, 20 de fevereiro de 2021

A RAPARIGA DE AUGHRIM

 
A chuva cai nos meus loiros caracóis,
as gotas sobre a pele são de enregelar;
a criança tão fria está em braços meus
- Lord Gregory, deixe-me entrar!

      Se és a rapariga de Aughrim,¹
      e não digo que esteja enganado,
      diz-me qual o primeiro objecto
      que entre nós dois foi trocado?

Oh, Gregory, não se lembra
daquela noite na colina, à luz de vela,
quando trocámos os anéis de nossos dedos
contra a minha vontade de donzela?
De oiro martelado era o anel meu,
de negro chumbo aquele que me deu.

      Oh, se és a rapariga de Aughrim,
      como sei já que estás errada!
      Mas diz-me: qual a outra peça
      que entre nós dois foi trocada?

Oh, Gregory, não se lembra
daquela noite na colina, à luz de vela,
quando trocámos nossos camiseiros
contra a minha vontade de donzela?
Era o meu de fino tecido holandês,
o seu apenas feito de pano escocês.

      Oh, se és tu a rapariga de Aughrim,
      como sei bem que não podes ser, 
      qual foi a nossa última troca?
      Será que agora me podes dizer?

Oh, Gregory, não se recorda,
na casa de meu pai, o salão-mor,
quando de mim tomou o que quis?
Foi de todas a desgraça maior...

A chuva cai nos meus loiros caracóis,
as gotas sobre a pele são de enregelar;
a criança tão fria está em braços meus
- Lord Gregory, deixe-me entrar!



(Anónimo.)








(Versão de Pedro Belo Clara a partir do original em inglês.) ²







(Poder-se-á escutar uma versão deste tema aqui: https://www.youtube.com/watch?v=CzFQXQ81nEI .)








(1) Aughrim é uma pequena vila situada no condado de Galway, na Irlanda. 



(2) Esta canção, ao que tudo indica, será a versão irlandesa dum longo poema com o título The Lass of Roch Royal ("A Rapariga de Roch Royal"), presumivelmente escocês. O nome do lugar, porém, não existe, mas encontramos nesse país o castelo Rough, em Falkirk, e o lago Ryan (Loch Ryan) no sudoeste do país. Para todos os efeitos, são aproximações consideradas válidas por quem de direito.
Uma canção com o nome Lord Gregory, possivelmente nesse texto baseada, surge no famoso cânone de Francis James Child (1825 - 1896), um escolástico norte-americano. Aí, Child, que colectou diversas canções populares da Escócia e da Inglaterra, indica que descobriu o tema escrito num manuscrito não publicado do princípio do séc. XVIII. Mais tarde, em 1776, é pela primeira vez editado num volume de nome Ancient and Modern Scottish Songs, da autoria de David Herd (1732 - 1810). Anos depois, em nova edição noutro volume, já surgia com nome distinto: The Lass of Ocram ("A Rapariga de Ocram"). 
Algures no tempo, a canção "viajou" até à Irlanda e aí recebeu a modelagem com que ficou conhecida naquele país. Apesar de uma certa popularidade, ao ponto do irlandês mais comum, por tê-la recebido de geração em geração, a considerar sua, o que terá elevado a fama do tema foi decerto a referência que lhe é feita no conto "O Morto", presente no livro "O Dublinenses", de James Joyce (1882 - 1941). Dada a sua importância no desenrolar da narrativa, que levará ao seu desfecho, o tema foi certamente investigado por muitos entusiastas - contribuindo para a sua universalidade.  
Como é habitual no universo das canções populares, existem imensas variações do tema. Se nuns, como o presente texto, o nome da rapariga infortunada nem sequer é referido, noutros é designada de Annie, Isabell ou Janet. A própria história, por sua vez, também sofre alterações de versão para versão. Como saber qual a que deu origem a tudo? 
Uma das poucas constantes é, de facto, o nome do nobre rapaz envolvido em tamanha malandragem: Lord Gregory. No geral, pode-se afirmar que em todas as versões temos uma rapariga a bater à porta do nobre rapaz que a enganou, pedindo abrigo para ela e seu filho. Como chove, e presume-se ser noite, a rapariga julga falar com o pai da criança, mas o Gregory que responde é, afinal, a sua mãe. (Note-se que Gregory, em português literalmente significando Gregório, é aqui nome de família, não nome próprio.) Assim, esta acaba enganando a rapariga e negar-lhe guarida. Outras versões são mais elaboradas e dão à mãe um cariz de feiticeira, que instiga a rapariga a correr para o mar, pois o filho havia embarcado - mentira, claro está. Nessa, contudo, encontramos um desfecho bem diferente, bem como intenção: o rapaz estaria apaixonado pela pobre moça, e ao vê-la morta num naufrágio  também ele sucumbe.
Não obstante, é uma canção que, embora não se baseie em nada de concretamente real, serve de denúncia de tantos comportamentos incorrectos tidos então, numa sociedade vincadamente patriarcal. Por lei, imagine-se, os pais de filhos feitos fora do casamento nem tinham obrigação de cuidar deles, ao passo que as mulheres eram facilmente castigadas moral e penalmente. 
Apesar de se tratar duma balada triste, é a prova dum tempo cruel, onde os homens tinham uma ampla liberdade de comportamento e nada pagavam pelas suas transgressões amorosas. Uma leitura mais atenta compreenderá como este filho, que a pobre rapariga embala, frio, em seus braços numa noite de chuva é o resultado duma violação, apesar de se depreender um certo namoro entre os dois jovens. Mas veja-se como pouca era já a estima de Gregory por esta rapariga que, sendo mais pobre, não seria propriamente uma camponesa iletrada: dá-lhe, ainda que contra a sua vontade, um anel de ouro e recebe em troca um de... chumbo. 
Só não se sabe, é certo, como Lord Gregory receberia a notícia de ter sido pai, dado que também aqui se presume que é a sua mãe que responde à rapariga e, negando-a, a envia para outro lugar que não aquele. Terá voltado para casa dos pais? Pois se a vemos de noite, debaixo de forte chuva, a bater à porta do seu amado pouco gentil não se depreenderá que fora, antes, expulsa de casa dos seus ofendidos pais?
O tema servira também de aviso a todas as donzelas para que não caíssem nos engodos dos nobres senhores tão desejosos de frescas conquistas. 
Para terminar, esclarece-se que a versão cantada deste texto, em regra, não é tão longa quanto esta aqui apresentada, especialmente nas versões mais recentes, onde cortam as referências aos anéis e aos camiseiros. 






("Portrait Of A Young Girl Holding Flowers"
- autor desc., séc. XIX)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

PERGRIN E A SEREIA

 
Numa tarde de Setembro, um pescador chamado Pergrin encontrava-se perto da costa a remar no seu barco. De repente, pareceu-lhe ver uma mulher numa concavidade de um penhasco. Intrigado, decidiu ir a terra para verificar se não se tinha enganado. Aproximou-se do penhasco com cautela e, para seu espanto, numa das concavidades da rocha, estava uma donzela lindíssima, embora da cintura para baixo tivesse uma cauda igual à dos peixes.

A sereia estava tão absorta a pentear o cabelo, que nem reparou que alguém a observava. Pergrin ficou a olhar para ela e a admirá-la durante muito tempo. Depois, de repente, decidido a levá-la para casa, agarrou-a por um braço e meteu-a dentro do barco. Amarrou-a para que não fugisse e remou em direcção a casa. 

A sereia começou a chorar e a implorar que ele a libertasse. Mas Pergrin, embora delicado, não acedeu às suas súplicas e, chegando a casa, fechou-a num quarto. Tratava-a com carinho e desvelo, mas a sereia chorava todo o dia e passou a recusar comida e bebida. Todos os dias, pedia a Pergrin para a libertar, mas isso era algo que ele não queria fazer. À medida que o tempo foi passando, a sereia foi ficando cada vez mais magra e com ar doentio. Pergrin começou a ficar preocupado. 

Um dia, um amigo contou-lhe o que tinha acontecido a um homem que, tal como ele, tinha capturado uma sereia. Embora ela muito lhe pedisse para a libertar, ou, pelo menos, para a deixar colocar a sua cauda dentro de água, o homem recusou todos os pedidos e ela acabou por morrer. Antes, porém, a sereia amaldiçoou o seu raptor e a aldeia onde tinha ficado presa durante tanto tempo. Passadas poucas semanas, o homem morreu de um modo miserável, assim como miseráveis e pobres foram sempre os habitantes daquela aldeia. 

Pergrin ficou a pensar nesta história. Por isso, quando a sua sereia lhe pediu «Deixa-me ir, que, em troca, quando estiveres em perigo, darei três gritos para te salvar», Pergrin levou-a até ao mar e aí a devolveu às águas. Feliz, a sereia mergulhou nas profundezas.

Passaram muitos meses. Pergrin nunca mais viu a sereia. Um dia, porém, numa tarde límpida e quente, foi à pesca no seu barco e, com ele, também nos seus barcos, foram vários pescadores. O céu estava muito azul, sem a ameaça de uma única nuvem. Mas, de repente, a cabeça da sereia emergiu das águas e ele ouviu-a gritar por três vezes: «Pergrin, recolhe a tua rede e volta para casa.» 

Pergrin obedeceu de imediato. Mal acostou o barco, uma enorme e violenta tempestade abateu-se sobre o mar e levou consigo todos os pescadores que lá tinham ficado. Assim Pergrin regressou a casa, são e salvo. 




(Conto extraído de "Os Tylwyth Teg ou O Povo Belo".)












(Tradução de Angélica Varandas in "Mitos e Lendas Celtas do País de Gales", Clássica Editora, 2012.)












("A Mermaid",
de John William Waterhouse
(1849 - 1917))

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

BÊNÇÃO DE ANO NOVO

 
Abençoa, Senhor, o novo dia,
A mim nunca antes oferecido;
É para Tua presença bem-dizer
Que este tempo me foi concedido.

Abençoa estes olhos meus,
Que eles abençoem o que podem ver;
Assim abençoarei o meu vizinho,
Possa ele de igual modo proceder.

Senhor, dá-me um coração puro,
Não me deixes longe de Tua protecção;
Abençoa meus filhos, minha esposa,
Os meus recursos, o gado de criação.



Anónimo.
(Tradicional escocês.)









(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa do original em gaélico editado no primeiro volume de Carmina Gadelica (1900), de Alexander Carmichael.)















("O Nascer do Sol",
de Harry Warrick.)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

CÂNTICO DE NATAL


Salvé o Rei! Salvé o Rei! Abençoado seja! Abençoado seja!
Salvé o Rei! Salvé o Rei! Abençoado o Rei que cantamos!
    Todos, saudai! Venha a nós a alegria!

Esta é a noite antes do Nascimento,
O nascimento do Filho da Virgem Maria.
As solas dos Seus pés tocaram a terra,
O Filho da glória dos altos desceu,
O Céu e a Terra para Ele cintilaram.
    Todos, saudai! Venha a nós a alegria!

A Ele a paz da terra, a felicidade do paraíso;
Vejam: seus pés tocaram o mundo!
A Ele homenagem de Reis, um cordeiro para O receber;
Rei vitorioso, Cordeiro glorioso,
Terra e Céu iluminam-se só para Ele.
    Todos, saudai! Venha a nós a alegria!

As montanhas brilham para Ele, assim as planícies;
A voz das vagas e a canção das orlas
A todos anunciam o nascimento de Cristo,
O filho do Rei dos Reis, vindo da terra da salvação;
Cintilou o Sol bem alto, nas montanhas, sem Seu nome.
    Todos, saudai! Venha a nós a alegria!

Cintilou em Seu nome a Terra,
O Senhor Deus uma porta abriu;
Filho da Virgem Maria, depressa vem em meu auxílio,
Cristo da esperança, Portal da alegria,
Sol doirado sobre colinas e montanhas!
    Todos, saudai! Venha a nós a alegria!





Anónimo. 
(Tradicional da Escócia.)













(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa do original em gaélico editado no primeiro volume de Carmina Gadelica (1900), de Alexander Carmichael.)












(Autor desconhecido)

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

O PODER DO POÇO DE SÃO TEGLA


Na quinta de Amnodd Bwll¹ vivia um agricultor chamado Robert William com a sua mulher, Mari Tomos, e o seu filho, William Robert. 
Quando o rapaz atingiu os doze anos de idade, os pais começaram a ficar muito ansiosos com a sua saúde, pois todos os dias recebiam sinais que pressagiavam a morte prematura do filho: uma das macieiras do jardim havia florido antes do tempo previsto; o velho galo que há anos os acordava pela manhã começou a cantar a meio da noite, pelo que foram obrigados a cortar-lhe a cabeça; Mari Tomos sonhou com um casamento, o que significa que um funeral estaria prestes a acontecer; uma noite, uma ave bateu no vidro do quarto de Robert e Mari, e eles imediatamente pensaram que era o Pássaro da Morte, o pássaro sem penas que bate as asas às janelas da casa que a morte vem visitar. 
Por fim, um dia, Robert William vinha a caminho de casa após a visita a uma feira, em Bala², quando, junto às margens do rio Tryweryn³, viu uma mulher feia e repelente, vestida com um longo vestido preto. O seu rosto era pálido, as maçãs do rosto salientes e os olhos de um negro profundo. Também negros eram os seus dentes, o nariz era pequeno com grandes narinas, e o cabelo cinzento e emaranhado. Com os braços esquálidos chapinhava nas águas do lago, fazendo um barulho estranho. Robert William parou, aterrorizado, mas com mais terror ainda ficou quando a ouvir dizer:
«Meu querido, meu filho, meu filho querido.»
Depois de pronunciar estas palavras, a estranha aparição sumiu-se no ar e Robert William teve a certeza de que tinha acabado de ver a terrível Cyhiraeth⁴, e que o seu grito era o presságio mais que evidente de que o seu filho iria morrer.
Transido de terror, Robert William procurou regressar a casa o mais depressa possível, mas à sua frente avistou uma pequena chama vermelha, a Lanterna da Morte, cujo tamanho é proporcional ao das vítimas cuja morte anuncia. Sendo pequena, pressagiava a morte de uma criança. 
Robert correu para chegar a casa, decidido a procurar ajuda. No dia seguinte, foi ter com um homem sábio que vivia em Trawsfynydd⁵ para saber se havia ainda esperança para o seu filho. O homem sábio disse-lhe que a única solução era levar o rapaz até ao Poço de São Tegla⁶, em Denbigshire⁷, e seguir as suas instruções. 
O pai assim fez e, depois do anoitecer, o rapaz aproximou-se do poço levando um cesto no braço, dentro do qual estava um galo. Primeiro, circundou o poço por três vezes, recitando o Pai-Nosso; depois, aproximou-se da igreja e fez o mesmo. Por fim, entrou na igreja, rastejou para debaixo do altar e aí passou a noite, utilizando a Bíblia por almofada. 
Pela manhã, deixou algumas moedas sobre o altar e o galo dentro da igreja. Se o galo morresse dentro da igreja, o rapaz ficaria são e salvo. 
Pai e filho regressaram a casa, tremendo de ansiedade. Passada uma semana, veio até eles um mensageiro comunicar que a ave tinha morrido e com ela todos os males que ameaçavam a vida de William Robert. O rapaz viveu cheio de saúde até uma idade avançada. 






(Conto extraído de "Os Tylwyth Teg ou O Povo Belo".)










(Tradução de Angélica Varandas in "Mitos e Lendas Celtas do País de Gales", Clássica Editora, 2012.)











(1) Não é propriamente o nome de uma propriedade, mas de uma região. Situa-se no condado de Gwynedd, no norte do País de Gales - onde também se encontra a belíssima península de Llyn. 


(2) Uma cidade na região centro-norte do País de Gales, em tempos idos famosa pelo seu mercado. Situa-se no condado de Merionethshire.


(3) Um rio no norte de Gales, o principal afluente do rio Dee.


(4) Figura mitológica que embora neste conto assuma uma forma humana, se bem que algo decrépita, geralmente aparece como espectro ou somente uma voz incorpórea, que emite um longo lamento sempre que a morte de alguém se aproxima. Será o equivalente à Banshee irlandesa. 


(5) Pequena vila costeira no noroeste do País de Gales, com menos de mil habitantes. Também se situa no condado de Gwynedd.


(6) Existe alguma controvérsia sobre quem será este santo. Existiu, de facto, um santo de nome Tecla, ou melhor, santa, nos primórdios do cristianismo, tendo sido até seguidora do apóstolo Paulo, e muitas vozes confirmam ser ela a cultuada nesse lugar do norte do País de Gales, a pequena vila de Llandegla, onde a dita igreja se situa. Contudo, existiu um culto local a uma virgem galesa de nome Tegla, e uma certa facção de historiadores inclina-se mais para esta hipótese como sendo ela a real origem da igreja e, também, do nome da vila, pois esta em galês significa "Paróquia de Santa Tecla" ou, no caso, "Santa Tegla". Até porque a santa mais famosa era de origem turca e a outra, também virgem, uma jovem local.  
Parece assim haver um erro no nome traduzido neste texto, já que o santo era, afinal, uma santa, fosse turca ou galesa, pouco importa. Como se vê, no texto surge "São Tegla". Mas dado que a tradução não foi da nossa responsabilidade, manteve-se a forma escolhida por quem a assumiu.
Resta acrescentar que a igreja visitada no conto por pai e filho ainda existe, e surge pela primeira vez registada em documentos do século XIII - embora com evidências de ser ainda mais antiga. 

(7) Condado na zona nordeste do País de Gales. 















(A igreja de Sta. Tegla, ou Tecla.
Fotografia de Eirian Evans.)